Apropriação do Software Educacional pelo Professor: Acontecendo no Andrews

Gisela Esperanza Torres de Clunie
Colégio Andrews

A experiência do Colégio Andrews em lnformática na Educação é recente, mas enriquecedora e gratificante. Iniciou-se em 1989, voltado para o uso da linguagem Logo, como uma atividade de ensino extracurricular, fora do expediente de aulas.

Basicamente, os cursos foram oferecidos aos alunos do 1º Grau, na nossa unidade da rua Visconde e Silva, no bairro Humaitá. A partir dessa experiência, o colégio considerou que tinha chegado a hora de incorporar a informática dentro da sua atividade acadêmica e manteve a preocupação constante sobre o assunto até hoje.

Pensou-se, sempre, que a informática fosse articulada junto às atividades curriculares, não com uma intenção profissionalizante do aluno, mas sim como um recurso de apoio, como uma ferramenta de trabalho do professor, onde ele pudesse fazer uso dela para ajudar o aluno a criar e a construir conhecimento.

Foi decidido, desde o primeiro momento, que a informática não seria incorporada dentro da grade curricular com intenção de ensino de informática, de Windows, do que é processador de texto, etc. Desde o início, o colégio percebeu que o envolvimento dos professores seria decisivo, seria uma atividade imprescindível, para se estruturar todo o nosso projeto. Sem o envolvimento dos professores, não adiantava ter projeto nenhum, não adiantava fazer investimentos.

Por isso o colégio procurou parceria. Procurou uma instituição que tivesse experiência e credibilidade na aplicação do informática no educação, e chegou à universidade. O Colégio Andrews firmou, então, um convênio com o Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da COPPE, da UFRJ.

O convênio com a COPPE considerava a implantação de um laboratório de informática aplicado à educação numa outra unidade do colégio, a unidade da Praia de Botafogo. As atividades inicialmente foram orientadas à sensibilização e capacitação do corpo docente. Mas também não podíamos admitir que o professor usasse a informática, e o resto do corpo administrativo do colégio ficasse sem saber do que se tratava. Então, as primeiras atividades foram orientadas a uma sensibilização sobre o que é informática, como ela pode ser usado como ferramenta de apoio para administrar a educação, para dar suporte às aulas, para criar experiências no laboratório e para acompanhar o trabalho de todas as disciplinas acadêmicas.

Os primeiros resultados do sensibilização não foram muito animadores. Não podíamos esperar que, com uma palestra e com grupos de discussão, o professar fosse contagiado pela informática e estivesse pronto para usar aquela tecnologia. É um processo gradual, é necessária muito paciência, que requer tempo.

Mesmo não tendo o resultado, inicialmente esperado, a sensibilização levou à presença de professores no laboratório, para o desenvolvimento de tarefas do dia-a-dia, como, por exemplo, fazer uma prova, ver o que havia de máquina por lá, como é que se podia ligar o computador. Coisas muito simples. Mas que para nós foram também muito gratificantes, porque se constituíram no início dos atividades junto ao professor .

O convênio com a COPPE iniciou-se em abril de 1994. No mês de junho foi organizada a 1ª Feira de lnformática no Andrews. Nessa feira, foram apresentados softwares educacionais desenvolvidos na COPPE-Sistemas, da UFRJ.

Após a feira, os professores do colégio foram convidados a se aproximar do laboratório para fazer uma avaliação dos softwares comerciais que estavam instalados, para eles próprios identificarem qual poderia ser o software, ou o conjunto de softwares, que melhor se ajustasse às suas necessidades, que oferecesse facilidades em termos de conteúdo, em termos de apresentação, de dinâmica, de facilidades, de estímulo para o aluno e para o próprio professor, para sua aula. A resposta que tivemos da parte dos professores foi pouca. Os professores, praticamente, não chegaram a avaliar os softwares. Eles apresentaram respostas muito compreensíveis, naturais, humanas, do dia-a-dia: 'Ah, não tô com tempo, não.' 'Não, meu amor, eu tenho que sair correndo, porque tenho que dar aula numa outra escola.' 'Não, não vai dar, porque eu moro longe e tenho que voltar, porque tenho uma reunião'. Sempre houve alguma excusa, e os professores simplesmente não avaliaram os softwares.

Nós, da equipe do laboratório, começamos a pensar que alguma coisa estava acontecendo. Não podíamos ficar de braços cruzados. Era necessário criar outras atividades para envolver o professor. Então, no segundo semestre foi concebido um projeto, onde foram convidados professores que tinham manifestado um certo interesse em relação ao computador, em relação à informática, em relação a como ela poderia se tornar uma ferramenta para eles.

Esses professores foram capacitados e treinados numa ferramenta de autoria, para criar software multimídia. Eles foram treinados na ferramenta Toolbook e, também, numa adaptação do método de documentação de hipermídia, o método HiperAutor, que foi desenvolvido como tese de mestrado na COPPE-Sistemas.

Nós acompanhamos todo o processo de construção. É importante destacar que foi lento e, de um modo geral, ele é mesmo devagar. Mesmo tendo experiência, vamos supor que fosse um informata, é um processo que requer tempo, requer recursos. No caso do nosso professor, mais tempo ainda, porque o professor não somente estava no colégio para desenvolver o software educacional. Ele tinha que dar aulas e tinha que atender às suas outras atividades fora do colégio.

No fim de 1994, os professores foram convidados pela segunda vez para avaliar software educacional. Desta vez, tendo conhecimento que um grupo de professores estava participando do projeto, onde elaborariam um software que iriam utilizar nas suas disciplinas. Nesse segundo chamado para avaliação, a participação dos professores e a presença no laboratório já foi mais motivadora. Se aproximaram com muitas dúvidas, com medo até, de se sentar à máquina e ver o que a máquina oferecia a eles. Mas se aproximaram...

Finalmente, numa segundo feira de informática no Colégio, foram expostos os projetos, os quatro programas multimídia desenvolvidos pelos professores do Andrews. Desta vez, a presença de professores foi maciça. E, posteriormente, a avaliação foi de fato expressiva.

Foi assim que nós confirmamos que a motivação do professor era muito importante. O professor era tímido, quando ia ver o software que tinha sido desenvolvido sei lá por quem, no exterior, por uma empresa? Ele se sentia muito constrangido para se relacionar, para tentar interagir com uma coisa que talvez ele não iria compreender. Quando eles viram os projetos desenvolvidos pelas professoras do próprio Andrews, eles se identificaram com a realidade que estava sendo vivenciada no colégio nesse momento. Já temos recebido, inclusive, propostas de professores que estão interessados em participar de projetos e desenvolver outros produtos de software educacional.

Nossos softwares educacionais são 'Tigres Asiáticos', para as aulas de geografia, 'Funções da Linguagem', desenvolvido para o curso de português, 'Berço da Matemática', um trabalho multidisciplinar, que envolve história e matemática, orientado para 5ª e 7ª série do 1º Grau, além de Idioma da Álgebra, um software específico para matemática, orientado para a 8ª série do 1º Grau.

É claro, que a proposta de informática na educação, do Colégio Andrews, não é uma proposta para o desenvolvimento de software educacional. A nossa proposta da informática na educação, é importante repetir, busca o uso da informática como um recurso pedagógico do professor e como uma ferramenta de trabalho do aluno. O desenvolvimento de software educacional aconteceu como um projeto, tentando atrair o professor para o laboratório, para ele tomar consciência de todo o apoio que a informátíca poderia oferecer.

Desenvolver software educacional, qualquer que seja o software, apresentou dificuldades para nós. Inicialmente, a sensibilização. A sensibilização chegou sim, mas não chegou a todos nem na medida esperada. Foi necessário tempo para isso. Depois, veio o envolvimento do professor e a falta de tempo. Sobre o tempo, eu que sou professora, no Panamá - sou professora na universidade, mas já trabalhei em educação no 2º Grau - reconheço que o tempo é um problema geral. Não só do Brasil e do Panamá. Do primeiro mundo, até. Todos os professores têm problemas de tempo, têm dificuldades de tempo. Por quê? Porque tempo é traduzido em dinheiro. Nós temos que sobreviver. Para isso, temos que procurar dinheiro e temos que trabalhar em outros lugares para poder recebê-lo. Esta atividade requer tempo. Tempo para ir para outra escola, para realizar um outro trabalho, estudo, a própria vida, enfim...

Tempo, planejamento, estímulo, envolvimento, recursos, uma política administrativa definida, tudo isso, são requisitos fundamentais para que os professores de uma escola se apropriem da noção de software educacional. Ciente disso, o Andrews procura se envolver, o tempo todo, com a lnformática Educativa, inclusive além dos limites físicos do próprio colégio.

Além da experiência que o colégio tem no desenvolvimento de software educacional, nós participamos também do lista Educa. Em abril de 1995, a Rede Nacional de Pesquisa, RNP, apresentou um edital, onde convidava as escolas particulares que quisessem se ligar à lnternet e desenvolver um projeto em parceria comum a escola pública que não tivesse recurso. Esta parceria era condição sinequanon, necessária, para o colégio particular ter acesso à Internet, via RNP.

O Colégio Andrews escolheu um colégio para formação de professores, o Colégio Estadual lgnácio Azevedo do Amaral, como parceiro no desenvolvimento do projeto. O tema do projeto foi 'O Impacto das Novas Tecnologias de Informação na Educação'. Esse projeto é veiculado, via lnternet, através de uma lista de discussão chamada Educa.

No Educa, a participação de pessoas de diversas partes do Brasil e do mundo tornou-se uma questão muito importante, pelas contribuições que foram dadas, pelos retornos que eram dados às colocações, dos alunos do Colégio lgnácio Azevedo do Amaral. Educa tornou-se um fórum de discussão tão rico, que atingiu metas que em princípio não tinham sido propostas. O Fórum também serviu de compensação, de retorno àquelas pessoas que tinham mais experiência profissional e participaram conosco.

Uma coisa ficou evidente no início da troca de mensagens: que o aluno professorando, do Brasil e de muitos países que são caracterizados como do Terceiro Mundo, tinham uma noção fraca, ou mesmo nula, da aplicação da nova tecnologia. Os alunos não sabiam o que era computador, não tinham idéia do que fazer com esse 'aparelho', como assim era chamado.

O Colégio Andrews também desenvolve projetos na rede Kidlink, realizando trocas de informações com alunos, entre 10 e 15 anos, de países de língua hispânica, com Portugal e com outros estados brasileiros. É um trabalho enriquecedor não só para os alunos, mas também para os próprios professores. É mais um ponto marcado a favor, na tentativa de incorporar cada vez mais os recursos da informática dentro do processo educativo.