O Professor e o Software Educacional: Apropriação ou Namoro?

Gilberto Resende de Azevedo
Coordenador e Pesquisador do Centro de lnformática Educativa do CECIERJ

Há duas questões básicas e importantíssimas para iniciar o meu ponto de vista sobre a apropriação do software educacional pelo professor.

Para começar, pergunto o seguinte: o professor está pronto para trabalhar como aluno que sabe mais do que ele? Efetivamente hoje o que mais encontramos são os alunos frente a frente com um micro, sabendo muito mais do que o professor. A escola e os professores estão prontos para o impacto dessa situação?

Ao contrário do que possa parecer, essa é uma situação que pode resultar em uma vantagem pedagógica para todos. Cada aluno sabendo muito mais do que o professor em certos aspectos, e o professor gerenciando tudo, no final todo aquele conjunto de pessoas vai saber muito mais do que cada parte separadamente. A escola, os professores e os alunos, a educação em geral, ganham muito mais se o professor deixar de ficar passando informações e de fato gerenciar essa relação entre os diversos alunos e os diversas informações dentro de sala.

Outra questão: a escola e o professor estão prontos para deixarem de ser os intermediários da informação? Porque não se pode pensar na apropriação do software educacional pelo professor sem antes pensarmos se a escola e o professor estão prontos para serem produtores de conhecimento, e não mais só repassadores de informações.

Sem antes pensarmos também em algumas citações que considero relevante reproduzir. Nos anais do Congresso Internacional de Logo, no Rio Grande do Sul, que ocorreu por volta de outubro de 1995, a professora Léa da Cruz Fagundes coloca: 'Considerando a quantidade de inovações que rapidamente surgem com o desenvolvimento da própria tecnologia, ampliamos esse congresso Logo com o Primeiro Congresso de lnformática Educativa no Mercosul, buscando demonstrar que a estética do Logo é perfeitamente compatível com outros sistemas informáticos, sobretudo quando usados em ambientes de aprendizagem construtivistas. Buscamos conhecer e divulgar as mais recentes versões do Logo. O nosso desenvolvimento depende de trocas recíprocas.'

Particularmente, considero essa colocação um marco, à medida que, notoriamente, o congresso de Logo era um encontro de pessoas que não discutiam praticamente nada além de Logo e que Logo era uma coisa chegando à beira do religiosidade. Hoje, dentro do próprio congresso de Logo, abrem-se outras vertentes da lnformática Educativa e incorpora-se essas vertentes ao próprio encontro específico de Logo. Portanto, essa é uma característica que a gente vem encontrando dentro de lnformática Educativa: a multiplicidade de possibilidades.

Neste mesmo congresso, tivemos ainda a presença de dois papas, na minha opinião, da lnformática Educativa: Simon Pappert e Bruno Vitale. Fazendo reflexões diametralmente diferentes, enquanto Simon Pappert pregou o fim da escola, com o aluno ligado à Internet, Bruno Vitale pregou o uso do computador dentro da escola e dentro do currículo regular, como ferramenta.

Por sua vez, em artigos de jornais e de revistas recentes, Louis Rossetto, editor da revista Wired, afirma: 'Eu acredito que é uma revolução e está transformando os Estados Unidos e o mundo inteiro. Não só os Estados Unidos, mas todo o planeta. E não está sendo conduzido por políticos, generais, um padre ou a mídia. São pessoas que estão criando e usando a tecnologia, que estão modificando o nosso jeito de trabalhar, como nós educamos nossos filhos, como nós nos divertimos, como nós nos relacionamos com a comunidade. Até mesmo a maneira de pensarmos sobre nós mesmos. Para mim as mudanças que estão ocorrendo são tão profundas e tão ambíguas que é inevitável dizer que as pessoas que estão realizando isso hoje são as pessoas mais poderosas do planeta.' Em outro texto, Rossetto esclarece: 'Nós estamos falando aqui de um fenômeno chamado desintermediação, tirar as pessoas que ficam entre processos, tirar o intermediário e permitir que as pessoas se conectem diretamente. Então, onde quer que isso aconteça, na sociedade, nos negócios, na educação, no lazer ou no governo, os intermediários vão se tornar obsoletos e vão desaparecer. Acho que isso faz parte da mudança e é uma evolução natural dessa revolução de informação digital.'

Também numa entrevista à revista lnformática e Exame Especial, Nicholas Negroponte responde ao entrevistador, que fez a seguinte pergunta: 'O senhor trabalhou em um projeto de educação para países em desenvolvimento há algum tempo. Como a lnternet pode modificar e ajudar a educação nessas regiões?' Negroponte responde: 'Países diferentes precisam de soluções diferentes. Um país pequeno, como a Costa Rica, por exemplo, já está bastante adiantado nessa área. Não sei exatamente como o Brasil deveria tratar essa questão. Existe um problema maior e deve-se trabalhar nele, que é tratar o futuro do nação numa perspectiva a longo prazo. Computadores e redes vão ter papel importante nesse futuro, mas é preciso a cooperação de todos: governo, professores e pais. ( ... ) Não é permitido a ninguém que tenha mais de 35 anos ignorar as novas tecnologias e deixar de aprendê-las. Elas têm que fazer parte de sua vida. Quem já passou dessa idade deve ser afortunado o suficiente e ter filhos. E eu diria a eles para aprender e olhar, e conviver com o computador como fazem seus filhos. E digo ainda: quem não tem filhos, que peque sobrinhos e outras crianças emprestadas pra aprender com elas.'

De posse dessas citações todas, suponho que todos nós podemos pensar melhor nas respostas àquelas questões iniciais que levantei. Eu mesmo, confesso, não tenho respostas prontas. Vou amadurecendo cada uma delas em cada experiência que vivencio ao longo do meu exercício profissional.

Durante 3 anos, fui coordenador do colégio Souza Aguiar, um pouco depois do encerramento das atividades do Projeto Educom dentro daquela instituição. Durante o Projeto Educom, convém relembrar, a Universidade Federal do Rio de Janeiro se propôs a desenvolver, e desenvolveu, softwares educacionais para biologia, química, física e matemática. Esses softwares foram aplicados numa testagem de forma controlado num laboratório montado pela universidade, em convênio com o governo de estado, no colégio Souza Aguiar. Um colégio no centro do cidade do Rio de Janeiro, um colégio pequeno, ou médio, para os padrões do estado, com 27 turmas, cerca de 1.000 alunos e 3 turnos. Um colégio de 2º Grau, de formação geral.

Uma série de situações específicas foram criadas: aulas duplas para um melhor aproveitamento, preparação inicial dos professores para utilização desses softwares, entre outras. O desenvolvimento dos softwares foi um processo cooperativo dos especialistas da universidade, especialistas nos conteúdos, especialistas em educação, programadores, analistas de sistemas e professores do próprio colégio Souza Aguiar, que colocaram questões para melhor adequar à realidade do aluno e todos os cuidados para o bom desenvolvimento do trabalho. O trabalho funcionou, os softwares foram desenvolvidos, a pesquisa em si se encerrou e a escola continuou com os laboratórios e utilizando os softwares.

Ao chegar no colégio Souza Aguiar, encontrei uma certa rejeição, melhor dizendo, uma certa resistência dos professores ao utilizar os laboratórios. Encontrei o laboratório com utilização de 10% da sua capacidade, isso depois de ter atingido uma utilização de praticamente 100% durante o projeto. Obviamente, a recepção que tive não foi das melhores, porque as pessoas entendiam que eu era uma pessoa que fui lá para obrigá-las a utilizar o laboratório. Mas na verdade, minha postura foi exatamente o contrário. Não obrigar o uso e sim mostrar como utilizar, ajudar no que fosse possível para que isso acontecesse.

Nós conseguimos montar uma equipe pequena, só de 3 pessoas, dentro do laboratório. Uma que ficava de manhã, uma que ficava de tarde e outra que, teoricamente, ficava de noite, que era eu, que ficava de manhã, de tarde e de noite. Nós colocávamos o laboratório em ponto de balo para o professor utilizar do forma que melhor aprouvesse. Então os professores começaram a chegar devagarinho, dizendo: 'Mas vem cá, o que você tem aí?' Eu disse : 'Olha, você é de que área? De biologia? Olha, tem isso, tem aquilo...'

Eles começaram a olhar os softwares mais detidamente, sem o compromisso de ter que utilizar. E colocavam: 'Ah, mas isso aqui eu não vou usar, porque não tem nada a ver com a minha aula.' Aí eu disse: 'ó, então tá bom, então não usa.' E eles: 'Ah, não, esse aqui é mais interessante. Eu poderia usar no terceiro bimestre, na unidade tal.' E eu: 'Então tá certo. Então, se você precisar na época, você avisa, que a gente coloca as coisas.' E o professor virava para mim e dizia o seguinte: 'Ah, mas eu não sei, não sei, não sei usar esses computadores, não. Não sei usar essa parafernália de ter que ligar os transformadores, ter que ligar o ar-condicionado. E eu não tenho tempo, eu não quero aumentar o meu trabalho.' A gente falou: 'Não, olha, é exatamente isso: a gente tá aqui exatamente pra você não aumentar o seu trabalho. Você marca dia, hora e local, tá?, e a gente deixa o laboratório pronto pra você.'

E assim começou a acontecer. Os professores disseram- 'Bom, já que eu não tenho nada a perder e que vai me facilitar alguma coisa na minha aula, vai acrescentar alguma coisa na minha aula, eu vou começar a utilizar.'

Os professores começaram a procurar o laboratório para examinar os softwares com calma, com tranqüilidade, e depois eles selecionavam 2, 3, 4 exemplares. Algumas pessoas usavam mais sistematicamente, outras usavam eventualmente, quando achavam que aquele ponto tinha um salto de qualidade para aula delas.

No segundo semestre, tivemos um aumento razoável da utilização. No final do ano seguinte, nós já tínhamos uma utilização quase total do laboratório, uns 80%. E no final desse segundo ano, começou um problema que eu não esperava: começamos a ter conflitos para utilizar aquele espaço.

Então os professores que foram lá e começaram a examinar, queriam usar o laboratório, mas não tínhamos mais horários vagos. Complicou. Começamos a sentar e a negociar, pedagogicamente e entre os professores, quem ia utilizar e de que forma ia utilizar. Os professores tinham que decidir isso. Começaram a barganhar: 'Tá, eu vou dar essa unidade, você usa para aquela outra. E você me arruma esse mês, eu dou, eu cedo o meu espaço pra você mês que vem.'

A situação, embora interessante, causou alguns problemas sérios. A direção da escola via com bons olhos, mas tinha uma questão para ser resolvida, que era uma tentativa de ampliação, duplicação, daquele laboratório, que foi tentado, mas infelizmente sem sucesso. Do ponto de vista administrativo e político, era complicado justificar a duplicação numa escola que já possuía 22 computadores. Em contra partida, outras escolas não tinham nenhum.

Uma outra reação dentro da escola também foi o surgimento e depois o crescimento de um grupo de pessoas que estavam se envolvendo com informática, que começaram a comprar equipamento, deixando de comprar um liqüidificador em função de um XTzinho, ou até um MSX. Havia uma mesa grande na sala dos professores, em que os professores se reuniam na hora do recreio, nos intervalos. De repente essa mesa começou a ter uma ponta em que o assunto era informática e essa ponta foi crescendo. Quando chegou no meio da mesa, o pessoal que não era ligado à informática simplesmente se afastou, dizendo: 'Pá, vocês são uns chatos! Vocês só conversam sobre computador!'

Mais um ano se passou, até que a grande maioria, 80% dos professores, já estava falando a mesma língua. E começaram a surgir coisas fantásticas, que eu acho que só acontecem no Brasil. Há uma professora que consegue associar um 386 com uma impressora matricial de 24 pinos e um mimeógrafo à álcool. Ela pega e imprime numa matriz ectográfica, roda no mimeógrafo à álcool e funciona. Eu acho que merecia se fazer um artigo sobre isso, porque eu não conseguia nunca imaginar que se poderia fazer uma associação dessas. Coisa de brasileiro. Coisa de urna professora que hoje é ex-professora primária, que abominava computador. E que comprou um computador, passou 3 meses jogando Paciência, porque era a única coisa que ela sabia fazer com a máquina.

Hoje em dia, passados mais ou menos 2 anos, ela está dando aula de informática. O primeiro equipamento, eu fui comprar com ela e disse para a moça da loja como era o equipamento que ela queria. Ela virou para mim 'É isso?' Eu confirmei, e ela assinou o cheque, levou o computador para casa e começou a jogar Paciência. Depois de uns 3 meses, ela descobriu que também estava lá o Word 2 e que dava para digitar as provas. Mais tarde, descobriu uma planilha e começou a tirar as médias. Agora, ela tem algumas dezenas de alunos que são professores, que estão aprendendo com ela como é que se usa uma impressora para rodar mimeógrafo à álcool e tirar a média.

Quando se fala em apropriação do software pelo professor, uma das questões é essa: o material disponível. É preciso estabelecer uma situação de facilitador, uma pessoa que possa, falando popularmente, não complicar a guerra. Nos encontros de informática, há tanto jargão, tanto jargão, que o professor se assusta. O professor tem uma certa facilidade desde que não o coloque em cheque.

Hoje em dia, vejo os professores com um sério problema de se expor perante o aluno. A categoria já é bastante desacreditada, e acho que as pessoas não estão querendo se expor mais nesse sentido. Agora, vai ser uma coisa que a gente vai ter que fazer.

No colégio Souza Aguiar, eu vi os professores se apropriarem das informações, dos dados e dos softwares educacionais. Uns mais, outros menos, outros nada. Houve professores que se mantiveram totalmente à parte do processo. E eu acho que é uma coisa que, mesmo que se dê razão a Nicholas Negroponte, tem que ser respeitado.

Eu mesmo sou produto disso, de um processo lento e gradual de apropriação de softwares e informática de um modo geral. Um pouco antes de chegar no Souza Aguiar, eu já brincava com computador há algum tempo, desde a época da faculdade, com aqueles computadores fantásticos que tinham 2K. Não são 2 mega de memória, são 2K de memória. Comecei a descobrir o potencial daquilo, entrei para faculdade de biologia, tentei aplicar aquilo dentro da minha área e fui para o Souza Aguiar.

A única coisa que me perguntaram lá: 'Você entende disso daí?' Eu disse: 'ó, eu entendo um pouquinho, tá? Eu sei ligar, desligar, fazer editor de texto, programo alguma coisa.' 'Ah, você programa?' 'Programo.' 'Então, você vai ser o coordenador do laboratório.' Eu disse: 'Meu Deus do céu!'

O pessoal estava vindo de um projeto gigantesco, do Educom. Mas, de lá de dentro, vendo os softwares, comecei a fuxicar com os amigos, chateando com coisas que eu queria que o software fizesse. A única coisa que consegui desenvolver efetivamente a mais foi um programinha que lia as respostas que os alunos davam.

Outros professores lá de dentro do Souza Aguiar também tentaram algumas modificações, análises. Vários enveredaram pela tarefa de avaliar o software, fazendo inclusive sugestões de mudança. Alguns se interessaram pela área de desenvolver software.

Hoje, o Souza Aguiar montou um BBS para os professores acessarem. O pessoal que se formou num curso de especialização na UFRJ de Informática Educativa, teve a brilhante idéia. Um professor do colégio Souza Aguiar, junto com 4 alunos montaram um BBS, que a gente não conseguiu fazer decolar, que 40 professores não conseguiram produzir. Está lá funcionando para quem quiser ver.

Apropriação de software educacional é feito namoro, noivado e casamento. Com algumas separações, dependendo do caso. Se não houver um namoro inicial e condições para que esse namoro exista, não existe relação. Como no noivado e casamento, se não houver uma realimentação, coisas novas acontecendo, ocorre um retrocesso quase a zero, ou sendo a zero, ou sendo pior: rejeição pura e simples.

Quando os professores namoram o computador e o software educacional, eles adaptam tudo à realidade da escola, do momento e do aluno.