O Desafio de pôr os Professores em cima de suas Próprias Pernas

Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães
Diretora-Presidente da Companhia de Informática da Prefeitura de Belém (CINBESA)

Como todas as prefeituras, Belém também tem uma empresa municipal de informática, a CINBESA - Companhia de Informática de Belém. O atual trabalho da prefeitura de Belém começou com um plano de governo. Esse plano de governo, inicialmente, era uma proposta de campanha, quando o atual prefeito - Hélio Mata Gueiros - era candidato à prefeitura. Desde aquele momento, o prefeito, que já tinha sido antes governador do estado, iniciava a sua campanha com um programa de atuação na prefeitura. E esse programa de atuação, depois do prefeito eleito, virou a primeira mensagem à Câmara Municipal.

Nessa mensagem estava explícita a programação que a prefeitura pretendia conduzir. Pensava-se em olhar Belém sob a ótica do planejamento estratégico, cuidando do desenvolvimento sustentável, da qualidade de vida e da prioridade à educação básica.

Hoje, a prefeitura de Belém tem uma rede municipal de escolas em número pequeno: 46 escolas apenas. A linha principal da educação visa à universalização qualitativa, preocupando-se em não deixar nenhuma criança fora da sala de aula e investindo na qualidade da escola.

O projeto Informática Educativa, por exemplo, é um dos nossos esforços nesse sentido. Acreditamos que empresas públicas de informática devem desviar a sua atenção também para outros setores. Devem não apenas cuidar da administração da máquina da prefeitura, do cadastro de pessoal, da emissão de impostos, da folha de pagamento, mas também se deslocar para a área de educação. Por isso, a Informática Educativa foi escolhida como um dos projetos essenciais da Companhia da Informática de Belém em parceria com a Secretaria Municipal de Educação.

No primeiro ano da presente administração, em 1992, não havia nada com relação à Informática Educativa na rede pública municipal. Nenhum computador, nenhum professor capacitado, em todas as nossas 46 escolas. A primeira etapa então foi escolher quais escolas deveriam ser beneficiadas. Lançou-se mão de todo um trabalho de conscientização do que era Informática Educativa - seminários, palestras para professores, diretores das escolas e corpo técnico. Além disso, fizemos um levantamento físico de quais salas de aulas poderiam receber instalações especiais para computador. Belém, todos sabem, é muito quente. Logo, o ar-condicionado é obrigatório.

Após esse trabalho de sensibilização e de seleção das escolas e dos professores, nós também passamos, como todo órgão público, pela etapa de licitação para aquisição de equipamentos. Ao final, foram eleitas 9 escolas para o primeiro ano, que receberam computadores e mais a infra-estrutura física necessária. Para atuar no programa, após a conclusão de um seminário de 40 horas, 20 professores foram selecionados.

Posteriormente, esses 20 professores fizeram um curso de 180 horas de capacitação, principalmente dentro da linguagem logo.

Em 1992, praticamente só trabalhamos na parte básica, para que a informática realmente pudesse chegar aos alunos. E em 1993, as primeiras 9 escolas de Belém receberam de fato os seus laboratórios.

É interessante observar que o projeto de Belém talvez tenha uma particularidade em relação a outros projetos de Informática Educativa na área pública. Ele é conduzido exclusivamente com recursos da prefeitura de Belém. Recursos muito limitados, especialmente por se tratar de uma prefeitura do extremo norte da Amazônia. Mas acreditamos tanto nos resultados do programa, que a própria prefeitura com seus recursos, sem nenhum tipo de apoio estadual, federal ou de qualquer outra fonte, conduz os projetos.

Sabemos também que hoje a informática no educação possui várias linhas, vários caminhos e várias possibilidades de aplicação. Nós optamos pela linha de investir na aprendizagem, na própria construção do conhecimento, dando condições para que o professor e o aluno sejam os próprios construtores do saber. E, nesse sentido, escolhemos trabalhar prioritariamente a linguagem Logo.

Lógico que há muitos bases teóricas para isso. No nosso caso, também adotamos as referências do que Toffler escreveu e de outros seguidores do sua linha, atentos à crescente importância do conhecimento para formação e constituição do poder. Toffler sempre diz nos seus livros, particularmente em 'Power Shift", que as 3 fontes do poder sempre foram riqueza, força e conhecimento, com seus diversos sinônimos, mas sempre riqueza, força e conhecimento. No entanto, hoje cada vez mais o conhecimento é o fator percentualmente mais significativo nessa composição. Ele é fator multiplicador dos outros componentes e é considerado infinito. A força e a riqueza podem terminar. O conhecimento sempre pode ser acrescentado.

Toffler também fala que o conhecimento pode ser adquirido pelos fracos e pelos pobres . Enquanto que hoje, até hoje, a riqueza e a força são privativas dos poderosos e dos ricos. Enfatiza ainda a importância do ambiente na formação da inteligência. Uma importância que se reflete inclusive em questões físicas e biológicas.

Além de Toffler, pensamos em Papert, que em seu último livro faz toda uma análise da sociedade do conhecimento. Enquanto muito gente chama a era de hoje de era do tecnologia, ou era tecnológica, ou era da informática, Popert prefere classificar o nosso tempo de era da aprendizagem, dizendo também que as profissões, as atividades e os trabalhos do mundo de agora evoluem com uma rapidez incrível. Antigamente, as pessoas nasciam e conseguiam viver da mesma profissão até morrerem. Hoje isso não é verdade.

Segundo Papert, o mundo de agora precisa de pessoas que possam aprender novas habilidades, que possam assimilar novos conceitos, que possam avaliar novas situações, que possam lidar com o inesperado. Por esse motivo, ele sugere que se invista na aprendizagem. Sugere que essa era, a qual nós adentramos, seja realmente a era da aprendizagem, combinando duas grandes tendências no mundo, que são a tecnológica e a epistemológica: a tecnologia exigindo uma revolução acerca do conhecimento, mas ao mesmo tempo oferecendo os meios para que isso seja possível.

Visto isso, voltemos à nosso realidade em Belém. Das 9 primeiras escolas atendidas em 1993, pulamos para as 14 escolas atendidas em 1995, totalizando cerca de 5.000 alunos assistidos em 427 turmas, que são orientados por 38 professores da rede, trabalhando exclusivamente com o programa, além de outros professores envolvidos.

Atualmente convém destacar a escola Bosque, de Outeiro, que está sendo construído pela Secretaria Municipal de Educação, é uma escola que tem como grande linha a educação ambiental. Ela está localizada numa ilha, distante de Belém, numa reserva florestal espetacular. São 110 metros por 1.200 metros, com 4.000 metros quadrados de área construída, dividida em alguns blocos especiais, como auditório, laboratórios e refeitório. A Idéia é trabalhar uma escola em horário integral.

A escola Bosque terá informática nas suas atividades. Será uma escola de educação ambiental, de "pé no chão', na ilha, mas com as antenas ligadas para o mundo. A renda familiar dos alunos é de no máximo de 2 salários mínimos. Seu laboratório de informática não será separado das outras atividades da escola. Queremos que a informática fique mais transparente, que ela entre no dia-a-dia na escola, não como uma atividade de um laboratório separado. Todos os professores da escola Bosque em Outeiro conhecem lnformática Educativa, conhecem a linguagem logo, participaram de oficinas, participaram de cursos. No ano preparatório, a linha é investir principalmente em Matemática e Língua Portuguesa, com todas as atividades desenvolvidas pelo computador.

Essa escola pretende trabalhar não só a educação formal, mas também a educação não formal. A idéia é trabalhar em projetos que as comunidades precisam, de tal maneira que a escola seja um pólo irradiador do desenvolvimento da ilha. Ela vai englobar desde o pré-escolar até o 2º Grau profissionalizante, onde há cursos de manejo de fauna, manejo de flora e técnico em ecoturismo, aproveitando a vocação natural de Belém para o turismo ecológico.

Até o momento, as atividades de lnformática Educativa nas escolas de Belém são tratadas como atividade extracurricular. Quer dizer, a informática não está no currículo das escolas municipais. Inclusive os alunos que compõem essas turmas que são atendidas em lnformática Educativa são alunos de turmas diferentes. Cada escola tem o seu próprio critério de seleção e escolha, dentro do seu projeto, dentro da sua programação.

Discutimos nesse momento se a lnformática Educativa deve chegar a outras escolas da rede nesse último ano de administração, ou se devemos aumentar os laboratórios, aumentar a experiência nas escolas que já possuem computador. Há uma determinada destinação de recursos que nos permite dobrar esse investimento em 1996. Mas, em todo caso, não queremos agir precipitadamente. O passado já nos ensinou algumas lições.

Apesar do atual experiência de Belém ser muito bem-sucedida, eu gosto muito de lembrar uma música do Milton Nascimento e do Fernando Brandt, que diz: 'Com a roupa encharcada e com a alma coberta de chão, todo artista tem que ir aonde o povo está.'. Porque, na verdade, essa experiência de Belém, mesmo que a prefeitura não tivesse essa história de hoje para contar, já ocorreu na antiga história do governo estadual. Esse novo grupo que agora trabalha em informática e educação na prefeitura de Belém há alguns anos atrás trabalhou no âmbito do governo estadual, quando o atual prefeito foi governador do estado em outro período. A atual Secretária Municipal de Educação, Terezinha Gueiros, foi Secretária Estadual na ocasião. Então essa "alma repleta de chão" é mais ou menos isso.

Trabalhamos em lnformática Educativa no período de 87-91 em âmbito estadual, começando com um projeto do MEC em 87. Naquele tempo, o MEC havia feito o projeto FORMAR, para capacitar alguns professores de Belém do Pará. Fizemos um projeto encaminhado ao MEC, obtendo os primeiros computadores, e fizemos a instalação do CIED, Centro de lnformática na Educação, capacitando professores em 1988 e atendendo 5.600 alunos nos anos de 89 e 90.

Naquela altura, os alunos visitavam periodicamente o Centro de Informática. Não havia laboratório nem computador dentro da própria escola. Os recursos eram limitados, a experiência era pioneira. O próprio MEC orientava o Pará ter um centro de informática periodicamente visitado e utilizado pelos alunos.

Depois que o MEC deixou de destinar recursos, o governo estadual continuou investindo no programa. Em 1990, nós começamos a descentralizar. Então, colocamos laboratório de informática em algumas escolas estaduais de Belém e chegamos ao interior do Pará, em Santarém, Conceição do Araquaia e Redenção. Achamos também que deveríamos chegar ao curso superior, capacitando professores para o ensino do 1ª a 4ª série do ensino básico, que inclusive, sendo aprovados em nosso vestibular e sendo funcionários públicos do estado, poderiam obter licença para cursar a nossa faculdade e subsidiar seus estudos com os seus próprios salários. Foi com esse espírito que construímos o Instituto Superior de Educação em Belém.

Hoje, esse lnstituto Superior de Educação não existe mais com aquele prédio, com aquela proposta. O governo estadual seguinte achou por bem desalojar os professores do prédio. Parecia ser muita coisa para a educação. Destinaram o prédio para a faculdade de medicina. Também, naquele governo, atendemos alunos da escola técnica, e deixamos no final do administração 180 computadores instalados, o que naquela época, em 1991, era uma marca significativo.

O que aconteceu no governo do Estado foi uma briga muito grande, muito forte pela sucessão. O governo que estava à frente dessas realizações não fez o governador sucessor. O sucessor era de outra linha, de outro partido, e a orientação principal foi acabar com todas as marcas que a administração anterior tinha deixado.

Agora, para não sofrer a mesma coisa outra vez, procuramos enraizar mais o programa. Naquela altura era mais difícil, porque havia um centro de informática, um CIED. Os alunos se deslocavam do escola ao CIED, a informática não estava tanto no dia-a-dia na escola. No momento em que se trabalha totalmente descentralizado, como nós trabalhamos hoje, isso fica muito mais enraizado na escola. Procuramos envolver todo grupo de professores e grupo técnico do escola, toda a comunidade, enfim - reuniões periódicas com os pais, feiras para exposição de trabalhos - para ver se essa própria comunidade beneficiada se dá conta da importância do programa, não permitindo que amanhã alguém venha a destruí-lo. Os erros precisam ser identificados e corrigidos, mas não podem simplesmente acabar um trabalho que estava em andamento.

Por fim, relembro aqui alguma coisa que li em um livro do Clarice Lispector. Ela fazia uma metáfora que, no meu entender, pode ser aplicada ao programa de capacitação de professores, de formação de professores nessa área que precisa de tanta mudança, como a área de educação. Clarice falava de uma pessoa que tinha três pernas: duas pernas que queriam andar e a terceira que prendia. Mas essas três pernas davam estabilidade à pessoa. Prendiam, mas a pessoa ficava estável.

Um belo dia, ela perde a terceira perna inútil e fica só com duas. Fica super-agoniada porque estava sentindo falta do perna que prendia, embora agora ela possa andar melhor.

Quer dizer, acho que na educação há certas práticas absolutamente inúteis, mas que, assim como a terceira perna da personagem de Clarice Lispector, os professores se habituaram a elas. Todo esse trabalho de mudança na educação através da informática tem que servir para esse tipo de reflexão. Provocar esse estado de desequilíbrio, buscar urna nova postura, perder a terceira perna.

Porque aquela terceira perna realmente era inútil, mas se continua sentindo falta dela. É preciso passar por um estágio de reflexão e mudança, até saber que bastam as duas pernas. E com as duas, vamos em frente.