Projeto Hipernet - A Internet Popular

Luiz Fernando Melgarejo
Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e
Coordenador do Projeto HiperNet (UFSC)

Laboratório de Software Educacional da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi criado há 10 anos. E o fato de surgir inserido em um setor de Informática dentro de um ambiente acadêmico possibilitou um avanço considerável dos estudos e pesquisas, apesar do nosso Estado não ter a devida atenção dos organismos financiadores oficiais.

Projeto HiperNet é um desses estudos desenvolvidos no Laboratório da UFSC. A sua proposta é diferenciada dos demais projetos de Informática Educativa, à medida que pensa sobre esse assunto de maneira comunitária. Isto é, em vez de pensar a Informática Educativa exclusivamente destinado ao professor, à escola e à criança, o Projeto HiperNet pensa a Informática Educativa dirigida ao cidadão comum do povo. E, com isso, estabelece a criação de uma Internet popular.

Na minha opinião pessoal e na de outras pessoas que participam do projeto, a Internet como é hoje não serve à imensa maioria da nossa população. Fala-se muito na Internet, está havendo um grande desenvolvimento na rede, a Internet é mesmo admirável, mas não serve para nós. A idéia da HiperNet é fazer com que a rede realmente se popularize e seja totalmente disponível na casa de todo cidadão, como hoje estão disponíveis, por exemplo, as antenas de TV.

Para nós, a Internet hoje em dia tende a ser mais um mecanismo de mercado, entendida como mídia e absorvida pelo capitalismo para criar um novo grande shopping internacional. Companhias de telecomunicações, bancos e diversas outras empresas transformam cada vez mais a Internet em um centro de consumo, onde qualquer produtinho, de qualquer parte do mundo, pode ser vendido aos milhões, bastando que os usuários cliquem botões, digitem seus cartões de crédito, sem precisar sair de casa.

O desenvolvimento desse mercado talvez não nos interesse. Como não nos interessam fenômeno global do desemprego que atinge a classe média em todo o planeta, em função de facilidades como essas que a Internet promove.

Se não somos totalmente favoráveis a esse sistema comercial, não quer dizer que contestemos o sistema como um todo. Mas pelo sim, pelo não, partimos para a construção de uma rede informatizada relativamente autônoma, que não precisa depender de muito financiamento. Uma rede que lançasse mão de tecnologia barata e, ao mesmo tempo, perfeitamente compatível com a Internet, cujo acesso se dá por telefone ou radioamador, de baixo custo de instalação e controlada por setores populares. Justamente, um dos orgulhos técnicos do Laboratório de Software Educacional da UFSC é tornar possível o Projeto HiperNet em termos de montagem de uma rede, não só com seus meios de transmissão, mas também com o desenvolvimento de softwares brasileiros, feitos em português.

Hoje a HiperNet é uma sub-rede da Internet, baseada em ambiente Windows e formada de núcleos de exploração em telemática. Esses núcleos estão localizados em Florianópolis, por enquanto, no nosso laboratório, o Edugraf, na Escola Técnica Federal, na Faculdade de Matemática da UFSC, na comunidade de Rio Vermelho e em plena Praça XV, no centro da cidade, com um quiosque equipado com 7 microcomputadores alugados pela Secretaria de Educação. Neste local, acontece atualmente a primeira rodada de fóruns públicos da HiperNet, já com cerca de 200 pessoas inscritas, a maioria delas professores da rede pública de ensino.

Ao contrário do que pensávamos, as ONGs e sindicatos ainda não demonstraram interesse em se agregarem à HiperNet. Com uma honrosa exceção de uma ONG que milita na área ecológica, que conseguiu o financiamento da Fundação Nacional do Meio Ambiente e, através do HiperNet, divulga o Gopher da Ilha, a mais completa base de dados sobre a Ilha de Santa Catarina, incluindo todas as dissertações de mestrado da UFSC a esse respeito, diversos mapas sobre a vegetação, o clima, a política e a economia da região, além de um levantamento cuidadoso das condições de saneamento e saúde da nossa população. Um trabalho cuja importância foi recentemente reconhecida com premiação em um encontro internacional de Educação Ambiental.

Subprojetos como este fazem parte do Projeto HiperNet. E há ainda vários repositórios de dados expressivos, como o subfórum Educação pela Arte, o Edufórum, com uma enorme lista de correspondentes, e até um ambiente de realidade virtual, onde também existe um grande número de participantes dispostos a acessar, fornecer e debater informações na rede, aberta e publicamente.

A rede HiperNet é uma provedora de informação gratuito. Cada pessoa inscrita pode gerar e receber dados sem maiores complicações. Cada pessoa é um cidadão plugado e ativo, ao contrário do cidadão passivo da Internet que, sempre que desejar transmitir dados, vai necessitar de uma estruturação computacional complexa, como os dispendiosos servidores de páginas de web. Se na Internet há diversos provedores cobrando para circular informação, na HiperNet cada pessoa poderá participar de uma cooperativa que banque os custos irrisórios de ligações telefônicas. No momento, é a UFSC e os acordos de parceria que patrocinam tudo isso.

É por isso que hoje, para integrar essa franquia gratuita da HiperNet, nós exigimos de cada pessoa e cada instituição um compromisso ideológico com a Informática Educativa de caráter comunitário. No meu ponto de vista, algo bastante diferente que a aplicação pura e simples da informática na escola, um lugar tradicionalmente repressivo, fechado e separado da sociedade.

Neste sentido, podemos dizer que a HiperNet não existe para melhorar a Educação como ela se apresenta hoje. E sim para transformar radicalmente a Educação, como uma experiência gratuita, comunitária, popular.