Novas Exigências para a Formação de Novos Professores

Alberto Tornaghi
Professor do Colégio Santo lnácio e da Escola de Professores

Para fazer os comentários a respeito da visão alternativa na questão da formação de professores, vou começar por citar a minha experiência recente, como professor da Escola de Professores. A Escola de Professores é uma escola de formação de professores que acaba de ser formado por membros de 5 das melhores, não vou dizer "as", mas das melhores escolas da cidade do Rio de Janeiro: Éden, CEAT, Oga Mitá, Sã Pereira e Senador Corrêa, que aliás é onde a escola funciona.

Essas 5 escolas se juntaram, porque não tinham mais profissionais decentes, de gabarito. Não conseguiam mais professores no mercado, porque os professores bons estão saindo, indo fazer outras coisas. Fiquei muito feliz de ser convidado a trabalhar na Escola de Professores, porque fui para uma escola em que os profissionais estudam muito, param para pensar, o que hoje em dia é uma raridade.

A Escola de Professores nasceu para formar bons professores, e nós tivemos duas turmas iniciais em 1994. Uma turma de adultos, que já terminaram o secundário, e outra turma de meninas de 14 anos.

A intenção dos profissionais que nela trabalham é fazer uma super escola. Mas é compreensível que os alunos de 14 anos, 15 anos, que estão terminando o 1º Grau, dificilmente leiam tudo que nós professores estamos lendo e recomendamos. Inocentemente, no começo achávamos que eles iam querer ler.

Desse modo, surge uma peculiaridade interessante. A Escola dos Professares é uma escola em que os professores aprendem realmente com os alunos. A gente erra e aprende junto. Eu, por exemplo, nessa escola, dou aula de didática especial para o ensino de ciências e dou aula de computador. No primeiro ano da minha experiência, meu programa de didática especial do ensino de ciência mudou 4 vezes. Uma vez a cada bimestre.

Com isso, nós aprendemos que um plano de ação pode mudar em função da necessidade do grupo. Minha turma sabia menos ciência do que eu imaginava, sabia menos matemática também. Na hora em que se percebe isso, você tem que mudar seu programa e fazer uma outra coisa. A Escola dos Professores é uma escola em que se pode mais do que mudar um programa. É um lugar onde se pode também buscar a paixão pela educação.

Já o outro espaço em que trabalho, o colégio Santo Inácio, aparentemente é mais tradicional. Mas só aparentemente. Na verdade, foi uma surpresa para mim encontrar lá gente que estuda e busca novos caminhos também alternativos. Muita gente abandonando as suas cartilhas e experimentando novas propostas pedagógicas. Achei que ficaria lá muito pouco tempo, mas já estou no terceiro ano nesse colégio.

No Santo lnácio, recentemente, pedi a direção para me tirar de sala de aula. Lá, penso em fazer outra coisa, além de simplesmente dar aulas de computador. Eu quero inventar maluquices para os professores fazerem. Fazer coisas normais, todos fazemos. Eu gosto de inventar as loucuras.

Aliás, no Santo lnácio, qualquer experiência nova é loucura. São cerca de 320 a 350 alunos. Cada série é um colégio inteiro. Então é arriscado. Mas o que discuto com a diretoria é que tenho emprego por muito pouco tempo se continuar dentro de sala de aula, dando aula de computador. É como ensinar a apontar lápis.

Como o Santo lnácio é um colégio de gente muito rica, alguns alunos inclusive têm 2 ou 3 computadores ligados em rede em casa. Sabem montar BBS, sabem muito mais de computador do que eu. Muito mais.

Há inclusive o caso de um aluno que, em todo aula, ele preparava o sistema para fazer a rede cair, e eu tinha até o final da aula para descobrir qual era o recado que ele tinha posto. No Santo lnácio que eu imaginava existir antes de dar aula lá, esse aluno seria expulso de sala. Uma segunda vez, seria suspenso. E a terceira, expulso do colégio, porque ele estava atrapalhando o trabalho de 320 outros alunos. Mas nesse caso, dei uma gargalhada e pedi a ele para me ensinar. Então, ele cada vez me dava uma aula diferente sobre computador. Deixei de ser o sujeito que leva a informação e passei a ser o sujeito que disputo com ele alguma coisa, brinco e o estimulo até a construir uma multimídia. Com esse aluno, meu trabalho foi descobrir essa nova forma de construção de linguagem. Em vez de construir uma redação, construir uma hipermídia. Eu me envolvi com ele, trabalhei com ele a linguagem. Por sua vez, ele me ensinou uma porção de coisas de rede. Como, por exemplo, usando a gíria, fazer uma rede "crashar", ou como fazer uma rede parar de funcionar, que eu não sabia, e portanto aprendi como fazê-lo voltar a funcionar.

Surge assim um novo papel, tanto para escola, quanto para educadores e alunos. Surgem novas funções para todos trazidos pela informática. E essas novas questões trazem uma nova forma de acesso ao conhecimento. Antigamente, ele estava na boca do professor. Hoje está numa porção de outros lugares. Está, por exemplo, até mesmo no computador que a criança brinca. No jogo que o meu filho brinca, ele teve que descobrir como é que era a bateria que Thomas Edson fez no século passado, para resolver o problema, que era botar uma máquina do tempo para funcionar.

Há também novas formas de comunicação. O computador exige uma comunicação mais formal, mais estruturada. Com isso, mudam as formas de relação interpessoal. Eu trabalhei durante um ano e meio com um sujeito que era coordenador brasileiro da rede Kidlink. Para ele, eu era o coordenador de programa de teleinformática do Santo lnácio. Era assim que ele me via, era assim que eu o via. Nós nos encontramos um ano e meio depois, e ele tomou um susto. Olhou para mim e disse: "Eu pensei que você fosse padre."

Tínhamos uma intimidade muito grande do ponto de vista intelectual e que a princípio onde teve como, via e-mail, ser expressa de uma maneira mais informal. Pedra Falcão mora em Maceió e eu moro no Rio de Janeiro. Até que um dia nos encontramos em um congresso em Recife. E o senhor Pedra era um guri de 22 anos de idade.

Mas afinal, para que pode servir a informática em educação? Particularmente, veio o computador como uma máquina de produzir, uma máquina de fazer coisas. Ele é uma possível extensão do nosso ato de pensar e da nossa inteligência. Nesse sentido, é o mesmo que lápis e papel. O sujeito consegue pensar melhor quando escreve.

Se o computador for uma máquina de produzir, ele traz a possibilidade que a gente busca há muito tempo em educação, que é o ensino centrado na ação do aluno, o aluno como sujeito do ação. O computador é uma máquina de fazer, como o computador ligado em rede é uma máquina de fazer com, fazer junto. E se a gente vai começar a usar, não há dúvida, vai ter que trabalhar novos conteúdos. Entre outras coisas, teremos que ensinar o que é formatação de texto, por exemplo. Tem "computês" para ser aprendido.

E se pensarmos, mais complexamente, na nova prática pedagógica que a presença do informática impõe, precisamos necessariamente refletir na formação de professores em Informática Educativa. Pensar inclusive que, futuramente, para ser um cidadão pleno e ter direito de cidadania, o aluno precisará dominar uma nova linguagem. Se não souber, não consegue emprego no banco, não consegue usar a maquininha do banco e provavelmente, daqui a poucos anos, não vai poder ser gari, porque a máquina de varrer rua vai ser automatizada. No princípio do século, controlar um forno era uma tarefa simples. Hoje não. Hoje controlar um forno é uma coisa mais sofisticada.

Eu acho que esses novos professores devem ser formados para comandar o processo de transformação que a informática traz, ou que a tecnologia traz. O processo vai transformar a escola, e quem deve estar senhor da situação em cada escola é o professor.

Como formar esse professor? Quais conteúdos esse professor deve aprender? Que programas ele deve aprender? Vamos ser todos professores de informática? As perguntas são muitas e, confesso, não saberia dar todas as respostas. Depende em que momento. O que é Importante é ter a clareza de que não se pode mais parar de aprender. Isso muda muito rápido. Quando eu comecei a fazer mestrado pela primeira vez em física, em 1980, eu usava um computador que era um monstro enorme, que eu não podia ver. Havia um terminal no minha sala e que eu não podia ver, porque ele ocupava um prédio inteiro. Em 1984, eu começo a dar aula com computador com um PC. Quando comecei a fazer minha rede em 1990, o Windows era uma promessa. Quando eu terminei, era uma realidade na vida de todo mundo, todo usuário. Então, o que a gente vai aprender, não sei. Se vamos ser todos professores de informática, não sei. Mas eu acho que vamos ter que ser todos professores de tudo.

A informática traz isso? Não. Ela pode trazer. Ela é um instrumento que nos ajuda a repensar e, enfim, nos dá a deixa pra fazer coisas que nós queríamos. Não é só a educação, o mundo produtivo, capitalista, que começam a caminhar, nós também estamos começando a caminhar para uma direção diferente. E não tem nada de bonzinho nisso. É que o capitalismo está precisando de pessoas generalistas que consigam ter visão de várias coisas e ser rapidamente aprendizes. Aprenderem coisas novas para poder refazer seu trabalho. Com a informática, estamos tendo a oportunidade de poder fazer uma coisa que na escola a gente quis durante muito tempo e não tinha respaldo no setor produtivo. Agora a gente começa a ter.

Para encerrar, cito um exemplo do que posso chamar de uma visão alternativa do ensino, que, de certa forma, serve de parâmetro para a discussão da nova formação de professores que se faz necessária. Isso aconteceu no Santo lnácio. Tínhamos dois professores de português dando aula de redação, e eu sugeri a eles fazer uma experiência dessas doidas, com 320 alunos, que era escrever redação no computador.

Mas a gente tentou fazer uma coisinha a mais. Em vez de escrever uma redação no computador, propomos interferir no planejamento da própria matéria para o ano letivo. Naquele ano, os professores de português tinham que trabalhar resumo, conto, narrativa e descrição. Eu disse: "Vamos pegar aqui o resumo, a narrativa, a descrição, botar no primeiro semestre e vamos escrever um roteiro de filme?'

Os professores toparam e reunimos grupos de 3 alunos para ter conflito. Para ter conflito e não evitar o conflito. Os alunos sentaram no computador e escreveram a sinopse de um filme, de um roteiro. A sinopse deveria ter pelo menos 3 personagens, estivemos trabalhando a questão do resumo.

Deram uma nota para os seus próprios trabalhos de sinopse. A nota era de 0 a 4. Alguns deles deram 4, outros 3. Nós, professores, demos outra nota. Às vezes coincidia, às vezes não.

Em seguida, cada aluno saiu para individualmente descrever o seu personagem e o ambiente em que ele vivia. De posse desse segundo momento, que era individual, eles voltavam com o seu personagem debaixo do braço, se reuniam de novo e criavam a narrativa do história. Ao invés de ter vários momentos isolados, tivemos um programa que durou um semestre inteiro.

A cada momento, cada aluno avaliava a si, o trabalho que ele produziu, a contribuição dos colegas e o contribuição dele. Havia sempre uma avaliação de processo e uma avaliação de produto.

E aí, quando eles diziam, por exemplo, na sinopse, 'Não, a sinopse tá boa. Dou 4 pra mim.', eu dizia: 'Olha, eu dei 2, porque eu não vi aí muito claro onde é que esses personagens estão, nem se é masculino. E vai dar problema.' 'Bom, não vai dar, e a gente tá satisfeito.'  Então a nota deles foi 4, a minha foi 2 e nenhuma dessas foi para o boletim.

Demos um passo a diante. Cada um foi construir seu personagem, individualmente. No caso daqueles alunos, a história era do conflito de dois caras que estavam querendo namorar uma menina e saíam no tapa. Um botou o cara no avião, outro botou o cara no navio. Não especificaram previamente.

Aí voltei a dizer: 'Olha, a sinopse não estava clara." E eles: 'Ah, legal. Então agente muda a sinopse e a nota passa de 2 pra 4.' Tudo bem. A nota não tinha mais uma função de ser instrumento eletivo, ou de valorizar o trabalho, mas sim de dar guia para continuidade do trabalho.

O que o computador tinha a ver com essa história? Podia fazer à mão? Podia. Só que feito no computador, trivialmente se reescrevia, mudavam algumas coisas, imprimia de novo e estava arrumadinho a negócio. Com o computador ganhamos tempo, agilidade na correção ortográfica, a chance de facilmente ilustrar os trabalhos e de fazer urna coisa contínua. O computador foi a desculpa que permitiu ao professor de português, que não sabia nada de computação, nada de informática, que morria de medo de encostar na máquina, de fazer isso e ter outras relações.

Esses garotos estavam escrevendo em rede de 386 e 486, em que o aluno escrevia e o professor salvava o trabalho dele em disquete, ia para o seu próprio computador, lia alguns trechos, voltava e comentava com o menino. O professor aprendia com isso um novo processo de discussão do conteúdo da matéria. E na avaliação final da turma, os alunos estavam dispostos a fazer a mesma coisa no próximo semestre.

A produção deles foi uma produção absolutamente assustadora, incomparável com tudo que se teve antes. E o que eles mais gostavam foi poder, depois deter escrito a história, ler e descobrir que algumas coisas estavam faltando. Colocar algumas coisas que não estavam boas, tirar, e principalmente poder mudar toda a ordem da história. Isso só se faz no computador.

Faz com lápis e papel também. Mas dá um trabalho, que o aluno não se permite a isso. Se permite sim, de pensar sobre ele, de refletir sobre como pensava inclusive. Por que é que eu escrevo isso aqui? Por que é que eu escrevi essa outra coisa? E esse grupo, em conjunto, reescreve as suas histórias, reescreve cada uma de suas coisas, traçando, quem sabe, as novas exigências para a formação de novos professores.