A Visão Empresarial da TREND Tecnologia Educacional

Jorge Fróes
Diretor de Pesquisas Educacionais do TREND Tecnologia Educacional

Evidentemente, não posso aqui comentar sobre a visão empresarial como um todo. Vou comentar, isto sim, sobre a visão empresarial da TREND, na questão da formação de professores, interligado à questão educacional mais ampla. E inicialmente, o tema sobre o novo desafio da formação dos professores é algo que nos deve fazer refletir. Por que novo e por que desafio? Por que só agora?

Na realidade, sempre foi um desafio. Um dos aspectos do que está acontecendo, a meu ver, é que essa tecnologia, esse 'téchné' mais 'logos', de repente está trazendo à discussão coisas que estavam adormecidas. Quando nós estamos falando de tecnologia educacional, nós estamos falando muito mais de educação do que de tecnologia. Daí a idéia do novo desafio.

Nas minhas andanças sobre o trabalho do Projeto Trend - Trend Tecnologia Educacional, tenho questionado as pessoas sobre o que seria que o professor passa na sala de aula, independente da tecnologia. O professor passa informação, ou será que ele passa conhecimento? Nas conversas que mantenho, surpreende-me a afirmativa de alguns colegas de que o professor passa ou transmite conhecimento.

Se nós estamos pensando na tecnologia da informação, porque a informática é exatamente isso, tecnologia da informação, a pergunta é relevante. Porque, se nós estivermos de fato acreditando que o professor em sala de aula transmite conhecimentos, na medida em que trazemos um instrumento fantástico como esse, que traz Informações, a coisa vai ficar complicada. E aí a tecnologia só vai atrapalhar ... Ou seja, vai trazer uma chancela para hábitos e até vícios que se institucionalizaram a pouco e pouco. A chancela poderosa da 'téchné', da tecnologia.

Sempre questionamos que, entre a informação e o apropriar-se dela pelo educando, existe um processo. Não é uma mudança de estado. É um processo, que é o processo de aprendizagem. Mas o que seria informação?

Os teóricos da teoria da informação dizem - uma das definições que eles apresentam é exatamente essa: uma informação seria ' um conjunto de dados inteligíveis'! Então nós podemos questionar mais: inteligíveis para quem?

Se eu trago uma informação à classe que para mim, enquanto professor estudioso do assunto, é conhecimento, - pressupõe-se que assim o seja - eu não posso afirmar que o simples fato de trazer essa informação para o meu aluno faça com que ele se aproprie dela e a transforme em conhecimento.

Algo aí se destaca: o papel mediador do professor. Novamente o papel do professor. As pessoas que pensam que a chegada da tecnologia da informação na escola vai tirar o lugar do professor não costumam reparar que cada vez mais a função do professor é reforçada. Só que o eixo da relação professor/aluno, esse sim, está mudando. Está mudando, com certos flutuações interessantes.

Toda informação traz um significado. E esse significado vem através de um suporte. Umas das coisas importantes da lnformática Educacional, da tecnologia educacional, é que é possível, através dos vários recursos que as novas tecnologias nos permitem, trazer significados, mudando o suporte que os sustenta. Eu posso trazer informações e tratar essas informações através da mudança de suporte, para que o sujeito se aproprie delas e, como diz Piaget, para que ele possa enquadrá-las aos seus esquemas. E então, sim, poderíamos pensar na construção do conhecimento a partir desse movimento do sujeito, utilizando recursos informatizados.

Para continuarmos nossas reflexões sobre a questão do formação de professores para esta nova realidade, seria conveniente analisarmos como podemos ver o computador em relação ao processo educacional. Portanto, classificamos:

  • o computador como objeto do processo;
  • o computador como ferramenta do processo;

Quando computadores - ou os sistemas informatizados - são objetos do processo, é o processo que se volta a eles: este seria o caso, por exemplo, de cursos sobre a tecnologia da informação, ou cursos sobre software, hardware, etc. Não é esse o caso que nos preocupa, em geral, na escola. Pode até ocorrer como conseqüência, mas não é esse o caso: não estamos querendo formar em nossas escolas do primeiro e segundo graus, especialistas em hardware, software, em análise de sistemas, etc...

-Quando pensamos os sistemas informatizados como ferramentas do processo educacional, o sentido do relação se inverte : agora eles são instrumentos, servem ao processo...

Caberia então perguntar: devemos usar computadores como ferramentas do processo educacional?

Esse, no meu entendimento, ainda não é o caminho. Ainda não, por quê? Porque tanto como objeto, quanto como ferramenta, os sistemas informatizados poderiam estar sendo utilizados fora do processo educacional. E, em geral isto ocorre...

Ora, o que nós desejamos é que esta possível utilização sacuda a classe e sacuda a instituição.

Para que isto possa realmente ocorrer, torna-se necessária outra maneira de ver esta relação :

- o computador dentro do processo educacional.

E podemos então ainda utilizá-lo de várias formas distintas, das quais destacamos:

  • como 'máquina de ensinar',
  • como instrumento de expressão e construção do pensamento, ou ainda,
  • como instrumento mediador na comunicação.

Analisemos estas novas propostas, todas considerados dentro do processo educacional.

A expressão 'computador como máquina de ensinar', lembro-nos uma abordagem que certamente conhecemos.

Vejamos, uma importante referência sobre máquinas de ensinar: a máquina, como um tutor, reforça o aluno para cada resposta correta, usando este feedback imediato não só para modelar eficientemente o comportamento, como para mantê-lo forte, de um modo que o leigo descreveria como manter o interesse do aluno. '

Esta frase nada tem a ver com computadores, mas com a 'máquina de ensinar', e deve-se exatamente a B. E Skinner, em seu livro 'Tecnologia do Ensino', publicado no década de 70. Desde o começo do década de 50, Skinner já usava máquinas de ensinar, na Universidade de Harvard .

O trecho seguinte apresenta uma delas, uma máquina de ensinar aritmética, assim descrito pelo autor: 'O material didático, uma equação a ser completada, por exemplo, aparece na abertura quadrada,..., impressa em uma fita de papel. Na fita estão perfurados orifícios correspondentes ao que falta na equação. O menino, movendo cursores, faz com que apareçam nos orifícios os números desejados. Uma vez que os cursores tenham sido manejados corretamente, a equação (ou outra questão) ficou completa. Então, o menino gira um botão na frente do máquina. A máquina ' lê ' a resposta, e se estiver certo, o botão gira livremente e uma nova questão aparece sob a abertura. Se o ajuste dos cursores não tiver sido feito de modo a completar corretamente a equação, o botão não gira e o aluno precisa corrigir a posição dos cursores.''

Pois bem, esta é exatamente a inspiração teórica de muitos programas educacionais: a busca de um comportamento previamente estabelecido, o reforço imediato da resposta correta...

Pensamos que esta não é a forma mais adequada de tratar a questão. Mesmo que, em determinados situações, possamos utilizar um software educacional que faça do computador uma máquina de ensinar - e isto pode realmente acontecer - creio que seja necessária uma visão crítica do que ocorre, inicialmente entendendo-se os fundamentos que se escondem na sua proposta, e finalmente tentando adaptar sua utilização a uma forma em que o aluno sala mais livre, tenha mais alternativas de desenvolver seu pensamento. Entretanto, na maioria dos casos, isto não é realmente possível.

Preferimos utilizar os sistemas informatizados como instrumentos de expressão e construção do pensamento, e desta forma, privilegiar a atividade do sujeito em busca da construção de seu conhecimento. O erro passa então a ser visto como um dos caminhos para esta construção.

Em nosso trabalho no TREND TECNOLOGIA EDUCACIONAL, temos uma visão de toda a realidade polifacetada da educação no Brasil. Nós trabalhamos hoje com cerca de 135 escolas em 13 estados e na capital, em Brasília. E nossa experiência, ao longo de quase cinco anos de trabalho com escolas de diversas posturas, adotando propostas educacionais distintas, tem sido muito proveitosa, mostrando-nos a necessidade de pensar novos caminhos na formação de um novo professor.

Temos registrado algumas dificuldades . O que tem ocorrido, em particular, nas escolas classe média e média alta das principais capitais, principalmente no Rio e São Paulo e que ocorre já há algum tempo com todas as facilidades dos novos recursos do tecnologia, é a figura do que eu chamo 'aluno consumidor'. Aquele para quem o ato de pensar, fazer, repensar e refazer sempre gera uma estranheza, uma certa reação.

Parece que a presença do computador reforça uma situação antiga, já de alguma forma presente na escola: o aluno quer tudo pronto. Porque em casa ele tem já um sistema informatizado, completo, atualizado, - algo do tipo 'SOHO' (Small Office Home Office) - e o garoto opera aquilo, com a maior facilidade; em outros casos, talvez até na maioria deles, estas máquinas domésticas são apenas utilizadas para jogos - a influência dos vídeo-games.

Há vários adolescentes que orientam BBS, como verdadeiros especialistas. E está tudo ali. É no clicar do mouse, é no fluir da coisa, navegando na lnternet.

Ocorre então uma confusão entre o objeto que para nós seria objeto pedagógico e para eles um trivial objeto de lazer.

A maioria das crianças praticamente se recusa, hoje, a essa atitude reflexiva que nós propomos: pensar, fazer, repensar, refazer. Será um traço do escola hoje? É também. A escola traz tudo pronto porque 'vai cair na prova'. Se você está querendo fazer uma parada para que o aluno faço uma reflexão sobre o que está ocorrendo, a primeira pergunta é: como é que vai ficar na prova, se vai cair na prova, etc. Não há mais um incentivo a essa reflexão.

Então as coisas ficam bem mais complicadas. Mas eu passo dessa crítica a um outro lado, uma outra abordagem do problema: como poderemos tornar a escola mais próxima desta realidade, esta nova realidade do cotidiano das crianças de hoje? ... será possível tornar o nosso ensino mais lúdico? mais agradável, mais brincalhão, não tão sério?

Como conseqüência dessas e de outras coisas, nossa proposta é repensar o processo pedagógico. Costumo dizer, às vezes assustando um pouco os meus próprios colegas na Trend, que o computador para mim, - os sistemas informatizados como um todo - seria uma grande desculpa para se repensar o processo. Uma desculpa que a gente tem que levar a sério, uma desculpa que tem que mergulhar fundo. E esse mergulhar não seria mais conhecer a máquina, ser um especialista na máquina, mas, isso que eu chamo da transformação do novo professor. Trata-se de fazer com que o professor se realimente em termos da nova realidade social. E voltar à universidade para que sinta uma nova influência nas suas posturas, nos seus atos didáticos. Algo repensado a partir de olhar o aluno como ser histórico. Não adianta agora querer insistir em formar professores para dar aula para 30, 40 alunos, e a turma ser a unidade. A unidade tem que ser o indivíduo.

O interessante é pensar como é que a máquina está nos trazendo possibilidades de reflexões desse tipo. A máquina que algumas pessoas diziam que iria robotizar o ensino, iria robotizar o aluno e de repente nos força a uma reflexão nesse nível.

Sendo assim o educador seria, entendemos, cada vez mais um incentivador, um provocador, um dinamizador do processo educacional. Ele deve ser necessariamente uma presença amiga e solidária, sem confundir isso com outros hábitos, sem confundir a relação. Essa presença amiga e solidária deve ser pensada, é algo crítico, que deve ser desenvolvido em cada um de nós.

Por outro lado, o educador seria também um facilitador da aprendizagem, não no sentido de Carl Rogers, mas no sentido de que, ao contrário, é aquele que de certa maneira vai complicar. Ele vai criar situações desafiadoras. Para isso ele tem que ter um embasamento teórico fundamentado . E não é a máquina que deve determinar sua formação. É cada vez mais entendendo como é que a criança pensa, como é a questão da emoção. É uma visão psico-pedagógica. É um professor que cria situações desafiadoras.

Entendemos que educador e educando aprendem juntos. O educar ocorre em uma convivência interativa. E o que significa 'conviver'? ... 'viver junto'.

Essa convivência interativa é algo que não pode ocorrer na escola se cada atividade é isolada, se cada disciplina não interage com as outras. Nesse caso, ao invés de ajudar, a questão da lnformática Educacional poderia até complicar mais.

Mas afinal, como é que o Projeto Trend-lnformática Educacional pode chegar à questão da formação do professor? A proposta pedagógica poderia ser resumida assim: trata-se de uma tentativa, e fique claro que é uma tentativa, já que nenhum de nós foi formado nessa direção, de uma abordagem construtivista do processo educacional, integrada ao contexto do escola. Trocando em miúdos, o trabalho de informática não deve ser um 'cursinho de informática' dentro da escola, mas um trabalho integrador, apoiado na criação de ambientes integrados de aprendizagem.

Esses ambientes integrados de aprendizagem integrariam não a geografia com história, matemática, ou português. É mais do que isso. É uma tentativa de integrar ensino e aprendizagem. Nós que dizemos que eles sempre foram integrados, sabemos que no prática não é verdade. O 'insignare' e o 'apreendere' sempre foram dissociados.

A idéia da Informática Educacional, é vista dentro da escola como algo que tem duas faces, não há uma outra possibilidade, pelo menos por enquanto. Uma: ela se apresenta como uma disciplina no elenco das disciplinas do escola. Porque, para mudar o sistema, é preciso estar dentro dele.

Só que, se a informática fosse apenas uma disciplina a mais no elenco dos disciplinas da escola, ela seria apenas mais uma disciplina isolada, como em geral ocorre.

Então a outra face de nosso trabalho, consiste em tornar a lnformática Educacional em uma real ferramenta do processo educacional: um elo de ligação, entre todas as outras disciplinas, feito em um processo gradativo, uma vez que isso não é uma simples mudança de estado. É essa outra face, como ferramenta dentro do processo que é a mais importante.

Os objetivos gerais do projeto seriam, em termos simples - a busca da expressão criativa das diversas potencialidades intelectuais, através da utilização crítica da máquina, na tentativa de uma abordagem construtivista do processo de construção e socialização do conhecimento.

São objetivos aparentemente muito simples, mas também muito amplos. Essa abordagem construtivista, está apoiada nas idéias de Piaget e Vygotsky. Para Piaget, o ato de conhecer exige do sujeito a ação sobre o objeto que ele quer conhecer, para transformar o objeto e descobrir as leis dessa transformação.

E pensando dessa maneira, em termos da formação do nosso pessoal, a TREND criou Centros de Formação Contínua, estrategicamente localizados por regiões. Estes Centros coordenam e orientam o trabalho dos Núcleos de Formação Contínua, situados em cada região. Tais Centros e Núcleos são espaços multiplicadores, cujo trabalho é coordenado e assessorado pelo SFC - Setor de Formação Contínua, sediado no Rio de Janeiro.

Nós também temos ajuda da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e da Escola do Futuro, da USP, através de convênios, beneficiando nosso trabalho de formação continuada de professores.

Esta é a nossa visão empresarial, em rápidas linhas, na questão do trabalho de lnformática Educacional, e na direção do processo de formação de professores.