Novas Tecnologias, Tempo, Educação e Interdisciplinaridade - Algumas Reflexões

Jorge Fróes
Diretor de Pesquisas Educacionais da Trend-Tecnologia Educacional

A palavra tecnologia tem a sua origem nas palavras gregas téchné, que é arte, arte no sentido de "produzir algo, buscando conhecer-se no que se produz" e logos, que quer dizer palavra, tratado, pensamento, discurso. Atualmente, a ênfase está muito mais no téchné, já não mais vista como arte de fazer. Tenho procurado resgatar, na minha vivência pessoal e profissional, a dimensão do Jogos. Por isto, proponho a vocês fazermos juntos, aqui, algumas reflexões sobre a informática educacional, novas tecnologias, o tempo, a educação e a interdisciplinaridade.

Começando sobre a questão do tempo, vou me valer de um pequeno poeta, que chamo de meu poetinha¹ que diz, num de seus poemas: O tempo nas nossas mãos.

Nossas mãos
A fábrica de nossa ação
O tempo,
que controla o calor e o vento.

Voltemos um pouco no tempo. Como começou esta história de informática educacional no Brasil? O uso da linguagem Logo no Brasil marcou bastante o começo do trabalho de informática educacional, por volta de 1983/1984. No projeto Educom, do qual a UFRJ participou e que eu tive a honra de também participar, havia uma discussão básica em forno do Logo e do Basic.... qual dos dois escolher. Havia o chamado grupo do Logo, que o achava importante, e das cinco propostas encaminhadas ao MEC para a criação dos Centros-Piloto do projeto Educom, três se dirigiam explicitamente ao Logo. Naquele época, pensava-se primeiro em aprender a programar, fosse usado o Logo ou o Basic. Os computadores eram outros, não havia multimídia, lnternet, etc. Trabalhávamos com computadores que eram rigorosamente estáticos, sem esta mobilidade que os novos recursos da informática nos trazem hoje. Com o tempo, as coisas começaram a mudar, e a questão passou a ser programar para aprender. Mas aprender o quê? Vieram as questões ligadas às aplicações, às tentativas da integração com a sala de aula, e eu me lembro que em uma das primeiras escolas onde trabalhei com informática, os alunos se dirigiam ao laboratório, de início para aprender a programar e depois, com a intenção claro, de programar para aprender. Mas a realidade mudou bastante de lá para cá. Surgiram as novas interfaces, mais amigáveis, o ambiente Windows, o mouse, as telas de alta resolução, e não se podia mais pensar em termos de programar para aprender ou aprender para programar. Surgiu então a necessidade de trabalhar de uma outra forma, como se percebe hoje nas aplicações educacionais da robótica. Ocorre que surgia uma nova figura na escola, o aluno-consumidor, aquele que não mais se deixa tocar pela ênfase que nós, educadores, apaixonados pela educação e estudiosos da questão da informática educacional, insistimos e damos ao processo pensar, fazer, repensar, refazer. Pelo menos na sua grande maioria, e não somente na área da informática, os alunos não se importam com este processo. Este aluno-consumidor, por mais que discutamos a questão do pensar, fazer, repensar, refazer, prefere o mouse, os softwares multimídia, o software pronto. Para que pensar, se está tudo pronto? Os dois consideram fundamental informatizar as escolas, profissionalizar os seus filhos. Será assim? Esta maquininha, que para alguns é instrumento de lazer, é vista pelos pais como um instrumento profissionalizante. Talvez seja uma doce ilusão, porque se, de fato, fosse um instrumento profissionalizante, os alunos estariam hoje usando a linguagem Basic. Mas, na realidade, o que é para nós um instrumento pedagógico é, para o aluno, um instrumento de lazer. Esta não é uma visão pessimista, amarga; trata-se apenas de uma constatação. Ninguém pode negar que surfar na lnternet é gostoso. Por outro lado, também não se pode afirmar que não há aprendizagem no trabalho com softwares multimídia. O problema é ainda não entendermos como se dá esta aprendizagem, uma compreensão que cabe a nós, educadores, buscar. Existe, portanto, no aluno, uma relutância de pensar.

Voltando ao meu poetinha:

Há épocas
Idades imortais do tempo
Em que nossas mãos tremem e suam
Como se tudo fosse aquilo mesmo.

Pensemos no questões entre tecnologia e mudança. Desde a Revolução Industrial, no século XVIII, quando a Inglaterra assustou e maravilhou o mundo, vimos percebendo como a téchné tem marcado a questão social. O surgimento da escrita, e ela pode ser vista como uma tecnologia, marcou a época, na medida em que ela trouxe uma nova dimensão: o tempo. Na época da transmissão oral, dos mitos, a noção de tempo era outra. Quando o homem começou a usar a escrita, a percepção do tempo sofreu uma enorme transformação, pois o que se escreve tem permanência e as palavras se vão com o tempo. Na época da Revolução Industrial, a máquina a vapor causou um enorme impacto. Ela era rápida, precisa e econômica para os padrões da época, levando ao protesto dos substituídos. Não podemos deixar de perceber uma certa analogia com a nossa atualidade, que também tem os substituídos pela máquina, como por exemplo, a classe dos bancários: afetados pela automação dos bancos, eles estão perdendo seu lugar de trabalho na sociedade. É evidente que há algo muito importante em relação a esta desumanização provocada pela máquina. Nós, educadores, temos que nospreocupar com esta questão do desumano e do desemprego.

Podemos hoje nos perguntar se não é o computador o Proteu das máquinas, na medida em que ele pode assumir várias formas: ora ele é um editor de texto, ora faz desenhos ou computação gráfica, ora é usado para navegar na lnternet. E o que é a lnternet senão um não-lugar? Estou lá, mas estou aqui. Somos dele escravos ou senhores? Ora escravos, ora senhores, podemos dizer... mas... em que contextos? Os caminhos da Ciência, desde Newton e Galileu, provavelmente até muito antes, foram sempre marcados por estes descompassos e avanços da téchné. No entanto, no paradigma moderno, que ainda hoje é o dominate, apenas duas dimensões fundamentais da matéria eram considerados: a massa e a energia. Hoje, a Ciência se dá conta de que há uma nova dimensão fundamental da matéria, que é a informação. Do ácido desoxirribonucléico, o ADN, aos microcircuitos que, pelo computador via lnternet, nos levam a qualquer lugar, estando ainda aqui, a nova matéria-prima é a informação. Assim, mesmo em termos genéticos, poderíamos dizer que a questão nova que ocorre é a informação. Lembro aqui o parecer de Humberto Maturana, um neurobiólogo chileno que trabalha com o que ele denomina Biologia do Conhecimento: não é propriamente correto dizer-se que os genes constituem a informação que especifica um ser vivo, pois esta afirmação despreza a questão da interrelação com o que ele chama de rede auto-poiética, que vem do grego poiesis, poeta, aquele que cria. Uso os próprios argumentos de Maturana para justificar a importância da informação e da interdisciplinaridade, de que falaremos adiante. Ele diz que é a rede de interações em sua totalidade - referindo-se às células - que constitui e especifica as características da célula. Não um dos seus componentes, o ADN - embora não haja dúvidas de que modificações nos genes trazem consequências dramáticas para a estrutura da célula. O erro, porém, afirma Maturana, é confundir participação essencial com responsabilidade única. O que ele nos lembra? Que não basta ter o código, não basta ter a informação, é preciso que haja uma rede, uma interação. Pois sem interação, a informação não tem significado. O que é o significado senão o efeito do significante no sujeito? A informação pura e simples nada nos traz. Posso ter num hard-disk vários artigos técnicos, científicos ou humanísticos, cheios de conteúdos fantásticos, mas se não me aproprio desta informação e, mais ainda, se não a troco com o outro, se não interajo, não há efeito.

Este pode ser o "gancho" para pensarmos a questão da interdisciplinaridade, assumindo o risco de cometer todos os equívocos, como sempre acontece em todo processo educacional. Penso que informações compartilhadas caracterizam verdadeiros atos de linguagem, pelas interações decorrentes. E o que tem ocorrido nestas interações? Da mesma forma em que a velocidade com que estas informações são transmitidas pelas redes, nós nos alienamos na pressa. Qual é a tônica hoje? Precisamos dizer muito em pouco tempo. Assim trabalham o vídeo e os jornais televisivos: muita informação em pouco tempo. Espaço sobre tempo - um espaço maior sobre um tempo menor, o que nos leva a repensar a relação espaço sobre tempo. O que acontece com uma fração quando o numerador aumenta muito e o denominador diminui muito? Espaço muito grande e tempo muito pequeno. O quociente, que é a velocidade, cresce sem parar... Nos alienamos na pressa; de tanto valorizar o tempo, nos viciamos na velocidade e nos alienamos na pressa. Lembro aqui um estudioso da área de comunicação e psicologia, Peter Pál Pelbart, que diz que abolimos o tempo: '(o tempo) é um instante sem duração, uma espécie de eterno presente, sem espessura; pura persistência da retina na fonte teleluminosa em meio a uma simultaneidade universal. Não mais nomadismo, mas uma sedentariedade onipresente'. Muitos vezes, somos forçados a diminuir o espaço mantendo o tempo pequeno e esta relação tende, como sabem os matemáticos, a uma indeterminação, a um limite, (0/0) zero sobre zero. Antes você pegava o seu carro e viajava para vários lugares, exercitando um sedentarisrno nômade. Agora é o contrário: nas teias do WWW, na lnternet, você vicia sentado, num nomadismo sedentário. 'Não mais partir mas deixar chegar. A ordem agora é habitar a velocidade absoluta no instante contínuo da emissão, instalados nesta instantaneidade, privados do tempo e do espaço, assistimos a uma verdadeira desmaterialização tecnológica.'

Passemos para a questão da escola e voltemos ao meu poetinha:

E dias
Q
ue nossas mãos tremem
Como se nunca tivessem ficado quentes
Como antes
E o tempo sofre
Com nossas almas e suas crias
Só que não nos damos conta
Que maltratam
Suas próprias vidas

A escola: mudança e educação. Para onde vai este lugar chamado escola? Precisamos pensar na questão da escola dentro deste contexto. Não há sentido em ficar maravilhado com toda esta téchné se o logos não entende o que ela traz. Antes de tudo, eu me pergunto de onde veio este lugar chamado escola. A origem da palavra é interessante. Dermival Savioni nos lembra que escolav em do grego scholé, que significa lugar do ócio. Na Grécia Antiga, as pessoas que dispunham de condições sócio-econômicas e tempo livre, nela se reuniam para pensar e refletir. O tempo ainda não havia sido assassinado. O povo aprendia no trabalho, que vem do latim tripalium, um 'instrumento de tortura, composto de três paus', logo a idéia de trabalho está, em suas origens, associado ao sofrimento, à dor, (o que nos leva a pensar com preocupação no ensino profissionalizante...). Hoje se diz que a escola resiste à informatização, às novas tecnologias, porque a essência da escola seja ainda aquele lugar onde o tempo tem lugar. É como a piada do cientista chinês que adormeceu por um século e quando acordou não reconheceu a sua cidade, foi até à sua escola e quando lá chegou, disse: agora estou emcasa, pois a escola ainda é a mesmo. É uma caricatura, mas sabemos que toda caricatura tem algo de verdadeiro e de importante, que deve ser levado a sério. Insisto que a escola é este lugar de 'um pouco de possível senão eu sufoco', como nos diz Guattari. Ela é lugar onde o tempo ainda não foi assassinado e onde podemos insistir em um processo, realmente, de reflexão.

Sabemos que há uma série de equívocos envolvidos nesta conversa que, como dizem alguns psicanalistas, é uma 'converso para boi dormir'. Toda fala é sempre uma 'conversa para boi dormir' e o analista tem que estar atento não à conversa mas ao boi, senão é ele, o analista, claro, que acaba dormindo...

Considero esta resistência da escola uma resistência benéfica, desde que ela seja trabalhada, através do enfrentamento dos conflitos e equívocos nela envolvidos. O que é uma prática pedagógica reflexiva? O que é a profissionalidade do professor, que nós discutimos tanto?

Podemos questionar a idéia de que uma escola - ou um professor - que se recusa a se informatizar está automaticamente excluída do século XXI. Será a escola novamente o lugar de um ócio automatizado, privilegiado pelas novas tecnologias e com a participação mínima do alunado?... E quanto à figura do professor? Não nos esqueçamos que ele ainda é a chave do enigma e que é a ele que precisamos nos voltar. Será que esta escola pode ser, de fato, um lugar onde o pensar reflexivo tenha lugar? É fundamental que questionemos os fundamentos, que voltemos à questão da formação do professor, a qual, sabemos, não acontece somente na escola normal ou no curso de pedagogia. Fala-se hoje em formação continuada, ligada à formação inicial, porque ainda são aspectos disjuntos da mesma questão. Acredito que a escola pode, e isto já está acontecendo, se transformar na tal rede de interações que faz com que a informação circule. Para que ela tenha seu efeito significante, para que a informação, de fato, gere respostas e quando ela começa a gerar respostas, o fenômeno da comunicação começa a ser cada vez mais eficaz. É fundamental, portanto, que repensemos esta escola, repensemos a formaçao, o cotidiano do professor, o que só pode ser feito na escola. Consideramos esta nova dimensão da matéria, a informação, isto é, a idéia de que a informação em si própria não leva a nada, como algo fundamental. Há ainda muitas dificuldades, e as principais delas estão ligados à formação do professor.

A Trend é uma empresa que trabalha com informática educacional dentro da escola. O nosso grupo abrange pessoas do área técnica e pedagógica, onde há uma troca. Procuramos criar esta rede interativa dentro da própria empresa, o que não é uma tarefa fácil, na medida em que há uma tendência natural das pessoas de guardar, reter a informação, pois, num certo sentido, informação é poder. Não me refiro apenas ao poder de ter informação, mas ao poder de decidir o que se deve e o que não se deve, ou ao que se pode ou não, transmitir ao outro. Buscamos utilizar os recursos informatizados como ferramentas, não do computador isolado, mas do computador dentro do sistema educcicional e considerando ele próprio um sistema em que toda a energia da informação circule. Lembro aqui os dados de pesquisas que nos mostram que a recuperação de um bit de informação requer pouquíssima energia, algo no ordem de 10 elevado a menos 16 graus Kelvin, isto é, 1 sobre 1 com 16 zeros, o que é quase nada em termos de energia. Contudo, a energia psíquica que circula quando se troca uma informação é elevadíssima, impossível de ser medida em graus Kelvin.

A Trend vem procurando, desde 1991, participar do processo educacional com uma visão crítica do uso do tecnologia na educação, o que apresenta uma série dedificuldades e empecilhos. Atualmente, pensamos na utilização destes recursos dentro do processo educacional, visando criar situações propícias à busca de caminhos para a interdisciplinaridade. Esta busca está ligada ao que a professora lvani Fazenda diz sobre 'caminhos estruturalmente concebidos que possam simplificar a viabilidade do trabalho ou a ação interdisciplinar'.

Acredito que esta tecnologia pode nos ajudar neste sentido, apesar de todas as dificuldades. Para que estes caminhos possam ser trilhados, tentamos trabalhar com a escola, não só com o aluno, mas basicamente com o professor. Na verdade, nos últimos dois anos, o nosso enfoque sofreu uma mudança. Antes, o trabalho estava muito ligado ao laboratório de informática educacional e agora nossa preocupação maior é extrapolar o espaço da sala de aula. O projeto Trend de informática educacional tem uma tentativa de abordagem construtivista, apenas uma tentativa, na medida em que nenhum de nós teve uma formação neste sentido, além do fato de que o construtivismo se transformou, em diversas situações, em um modismo, como tantos outros. Para nós, a idéia da interdisciplinaridade consiste em gerar, na escola, um ambiente onde esta rede de interações possa ser caracterizada. É um projeto bastante trabalhoso e para realizá-lo adotamos uma estratégia: situar a informática educacional como disciplina dentro do currículo da instituições. Trata-se apenas de uma estratégia, porque na verdade o que queremos é que a informática deixe de ser uma disciplina a mais e passe a ser um elo de ligação entre todas as disciplinas. Contudo, para que isto aconteça, é preciso que haja um encontro não só das disciplinas, mas fundamentalmente das pessoas. lvani Fazenda nos lembra que a questão da interdisciplinaridade está mais no encontro dos indivíduos do que no encontro, na junção, de disciplinas. Como este processo se dá, ainda estamos tentando aprender, pois não há receitas, trata-se de um aprendizado contínuo. Trabalhamos hoje com cerca de duzentas escolas, de norte a sul do Brasil, e cada uma delas apresenta uma realidade diferente, o que nos enriquece neste desejo de crescer e aprender.

Acredito que a escola está passando por um processo de mudança, embora seja um processo que, ao que parece, está começando de cima para baixo. Cabe a nós, professores, repensar a escola. Acredito que é a partir do encontro entre pessoas e na rede humanizada de interações, lembrando do questão da informação como elemento fundamental nesta mudança, que de fato poderemos ter, como diz Boaventura de Souza Santos, '...um conhecimento prudente para uma vida decente'. Cabe também a nós, professores, fazer a crítica desta máquina. A lnternet, por exemplo, é um acontecimento formidável, mas não nos esqueçamos que ela também pode ser usada para veicular receita de bombas, e que há várias pessoas com acesso à Internet, algumas ainda adolescentes, que aprenderam a fabricar bombas caseiras. Há ainda casos de bombas nas escolas e casos de professores ameaçados por alunos que são traficantes. Recentemente, um professor ao tentar convencer um aluno a deixar o tráfico, recebeu a resposta de que o seu emprego era melhor, pois ganhava mais que o professor. Na saída da escola, o aluno mostrou ao professor a sua arma e fez a ameaça: 'Não se esqueçade que em boca fechada não entra mosca', levando o professor a pedir demissão da escola. E aí fica a questão de como podemos exercer todos estas idéias bonitas se estamos impedidos no próprio exercício da nossa cidadania. Como exercer o nosso sonho educacional se não podemos sequer exercer a nosso direito de cidadãos enquanto professores?

Fico por aqui.... Muito obrigado.


¹ Meu poetinha, Rodrigo Fróes, meu filho, aos 9 anos de idade...