O Uso da Informática na Educação Especial (III)

Miryan Bonadiu Pelosi
Terapeuta Ocupacional, Psicopedagoga e Diretora da Intelligentia & Cia. Informática

A informática é um recurso que pode auxiliar as pessoas que têm necessidades especiais.

No trabalho com adultos, crianças ou adolescentes com dificuldades motoras, o déficit de comunicação é extremamente freqüente. Vamos pensar em uma criança deficiente inserida em uma turma regular. Como o professor pode lidar com ela dentro de sua realidade de sala de aula? Podemos ajudar este professor trabalhando com a criança sua possibilidade de comunicação oral e escrita.

A maneira como podemos ajudar o professor e como o computador e a informática podem promover a integração desse indivíduo são atualmente nosso objeto de estudo.

No caso de uma pessoa que apresenta dificuldade para se comunicar e que não percebemos prontamente o que ele deseja, precisamos descobrir de que maneira ela expressa contentamento e descontentamento, de que maneira ela diz 'sim' e 'não'. Precisamos investigar se é possível, ou não, que ela use o computador, se reconhece figuras, fotografias, enfim, descobrir seu potencial cognitivo.

Apesar de uma criança não falar, ela pode ter um potencial de expressão que vai auxiliá-la a se comunicar com o professor de uma maneira alternativa. O professor deve pesquisar os recursos que podem auxiliá-la.

É possível construir um comunicador bem artesanal, que, na escola, terá o papel de um comunicador, dando oportunidade para a criança que não consegue apontar. Assim, ela pode construir a sua escrita com letras, blocos de madeira ou através de qualquer outro equipamento artesanal.

Aí surge uma questão: como, dentro de uma sala de aula, compreender o que a criança quer falar e o que ela aprendeu? Precisamos ter um canal de comunicação que avalie o que ela sabe e permita que ela passe de ano.

O outro aspecto importante é viabilizar maneiras para que ela escreva, faça as provas. Elas podem ser realizadas oralmente ou com o auxílio de outros recursos. Algumas vezes, a criança que não escreve precisa desenvolver sua coordenação motora, outras vezes, necessita que sua escrita seja funcional, utilizando letras, sílabas ou palavras de papel, borracha, velcro, plástico, em forma de cubos, etc. Cada recurso deve ser avaliado para que se adapte ao indivíduo.

O computador é um desses recursos. Há deficientes que podem usar o computador sem nenhum tipo de adaptação. Um outro grupo de pessoas possui uma condição motora que permite pressionar as teclas, mas que devido à incoordenação, são muito lentas. Nesses casos, dispomos de diversos recursos, como, por exemplo, a colmeia, que é uma placa de acrílico com furos, que colocado sobre o teclado reduz muito os erros e aumenta a funcionalidade. Outros recursos são: faixas que restringem o movimento dos ombros, adaptadores que colocam apenas um dedo em evidência, teclados expandidos, adaptados, somente com setas, letras em ordem seqüencial ou números.

Para os que não podem usar nenhum desses recursos, utilizamos acionadores externos combinados com softwares especiais. Os acionadores podem ser pressionados com a cabeça, mão, braço, perna, pé, etc. Um pré-requisito para que o indivíduo faça uso de um acionador externo é que ele tenha pelo menos um movimento voluntário. Podemos construir acionadores artesanais, de acordo com cada caso.

O software Comunique é um desses softwares especiais. Ele surgiu em função do meu trabalho. Até algum tempo atrás, eu não tinha acesso a estes comunicadores, sabia que eles existiam mas não como adquiri-los. Quis construir um comunicador, não consegui e junto com um profissional da área de informática, elaborei este software.

O Comunique é personalizado, não comercial, elaborado segundo as possibilidades, estágio de comunicação e de aprendizado do usuário. Periodicamente as telas são revistas para que acompanhe o desenvolvimento do indivíduo.

A idéia do software é a de que seja possível respeitar a diferença existente entre as pessoas: uma enxerga melhor preto com amarelo, outra branco e preto; uma precisa letra pequena e a outra de uma letra grande, uma é capaz de escolher apenas entre duas informações na tela, o 'sim' e o 'não', outra pode escolher entre 70 informações. Não é possível, portanto, fazer um pacote, pois ele não pode se adequar a todas essas diferenças a que nos referimos. O software é como um livro, com uma capa e folhas em branco, nós é que o escrevemos.

Usamos recursos tanto na área da informática como artesanais. Papelão, cola ou recorte de revista também são recursos utilizados para que os deficientes motores possam aprender. Muitas vezes, a possibilidade motora é bastante pequena, não há comunicação mas existe um potencial cognitivo. Se você não adapta o recurso, não oferece a ela uma possibilidade de construir o seu próprio conhecimento, tira a única saída que ele tem de mostrar o que tem de bom, o que sabe e o que pode.

O avanço da tecnologia e a comunicação alternativa nos dão suporte para percorrer esse caminho, basta apenas experimentar.