Charles Robert Darwin (1809 – 1882)

Primeiros passos de um cientista

Charles Darwin foi um menino inquieto – em muitos sentidos. Aos doze anos, em um de seus primeiros registros escritos (uma carta dirigida a um amigo da época não identificado, em 1822), ele dava mostras, de forma muito espontânea e engraçada, de não se preocupar muito com certos hábitos corriqueiros da vida: “eu só lavo meus pés uma vez ao mês na escola, o que eu confesso ser nojento, mas não posso evitar (...)”. Outras coisas, talvez não muito comuns a meninos de sua idade, chamavam-lhe mais a atenção. Desde pequeno, interessava-se por observar o mundo à sua volta e entender de que ele era feito. Darwin tinha curiosidade em relação à vida, nas suas mais diversas formas e manifestações. Não se deve a um simples acaso o fato de, já na infância, ter criado o hábito de colecionar alguns animaizinhos e minerais, talvez também impulsionado pelos passos de seu avô, Erasmus Darwin, que havia dedicado parte de sua vida ao estudo do mundo natural (ele também se interessava por política e foi muito influente em sua época). Através de suas coleções, ainda que minimamente, ele rastreava pequenas “pegadas” do mundo e captava sinais sutis de sua complexidade: a vida podia ter muitos caminhos.

Também na adolescência, ele deu continuidade a essa busca. Aos 16 anos, juntamente com seu irmão Erasmus, Darwin deixou o seu país, a Inglaterra, para cursar a Universidade de Medicina de Edimburgo, na Escócia. Em uma carta dirigida a seu pai, em 1825, pode-se perceber um pouco de seu entusiasmo com relação à cidade que passava a habitar. Nenhuma paisagem parecia escapar aos seus olhos. Darwin se fazia um observador atento do mundo: “nós (...) caminhamos pela cidade, a qual admiramos imensamente; Bridge Street é na verdade a coisa mais extraordinária que eu já vi, e quando olhávamos para os lados tínhamos dificuldade em acreditar em nossos olhos, porque em vez
de um rio víamos uma torrente de pessoas”.

Não era, no entanto, pela prática da medicina que mais se interessava, mas pela história natural. Darwin possuía um claro interesse pelo estudo da vida, mas essa vida não se limitava ao que era estritamente humano. Nessa época, em resposta à sua curiosidade ligada ao mundo natural, participou de várias sociedades de naturalistas, e foi discípulo de Robert Edmund Grant, que estudava as teorias de Lamark - em relação às quais, posteriormente, Darwin estabeleceria vários pontos de divergência. Ele participou das investigações levadas a cabo por Grant sobre o ciclo de vida de animais marinhos, que desembocaram na formulação da teoria de que todos os animais são dotados de órgãos similares, diferentes apenas em complexidade. Além disso, ele se aproximou de John Edmonstone, um ex-escravo negro, nascido na Guiana, com quem aprendeu taxidermia. Edmonstone lhe contava muitas histórias interessantes sobre as florestas tropicais na América do Sul.

Durante a estada em Edimburgo, seu interesse pela vida ganhou novos e consistentes contornos. Alguns caminhos que viria a percorrer em busca de respostas para as questões que aos seus olhos se abriam já começavam a se anunciar. Seu pai, no entanto, tão logo percebeu seu desinteresse pela medicina, trouxe-o de volta para a Inglaterra e o matriculou na Escola de Artes de Cambridge para que ele pudesse fazer formação de pastor anglicano. Mas essa mudança de rumos na vida de Darwin não o levou a abrir mão do estudo da história natural; pelo contrário, ele encontrou um espaço para entrar em contato com essa área do conhecimento que tanto lhe despertava interesse. Darwin se inscreveu em um curso de história natural ministrado pelo reverendo John Stevens Henslow, importante botânico de sua época.

As viagens de Darwin

Alguns anos mais tarde, depois de ter realizado um curso sobre geologia, que o prepararia para uma viagem rumo à Ilha da Madeira, Henslow o estimulou a participar de uma expedição que percorreria a costa da América do Sul e o arquipélago de Galápagos no oceano Pacífico. O objetivo inicial da expedição era mapear regiões pouco conhecidas do litoral da costa sul americana. Em uma carta dirigida a Darwin, em 1831, Henslow argumentava sobre a grande oportunidade de formação que se abria para ele com a expedição: “eu considero você a pessoa mais qualificada que conheço que se habilitaria a participar de tal aventura - eu sustento isso não na suposição de você vir a ser um naturalista de formação, mas como uma oportunidade para se coletar, observar e anotar qualquer coisa digna de nota para a história natural”.
É nesse momento que Darwin, aceitando o desafio proposto por Henslow, embarca na viagem do navio HMS Beagle, que durou cinco anos, período em que manteve contato com seu mentor, enviando-lhe rochas, fósseis e espécimes da fauna e flora. Em uma de suas cartas escritas para Henslow, em 1832, Darwin tenta descrever a sensação experimentada com a vivência de tantas situações novas durante a viagem, através das quais elaborou promissoras ideias sobre a história natural: “tenho tantas coisas para escrever, que a minha cabeça está tão plena de ideias estranhamente ordenadas, da mesma forma que uma garrafa sobre a mesa está cheia com (uma coleção de) animais” (alusão ao fato de guardar os animais da coleção em garrafas). Através de suas cartas, Darwin relatava minuciosamente os acontecimentos e registrava suas ideias, correspondendo-se ativamente com cerca de 2.000 pessoas em todo o mundo, com quem trocava informações e amostras diversas coletadas.

A viagem de Darwin havia sido também motivada por outra razão. FitzRoy, o capitão do navio, precisava de alguém que, a um só tempo, fizesse pesquisas na região e fosse uma companhia culta para conversar. Além disso, FitzRoy temia pelo seu destino: um tio seu, que havia sido capitão, caíra em depressão profunda durante uma longa viagem, suicidando-se em mar. FitzRoy também tinha uma missão que era levar de volta alguns indígenas fueguinos que haviam vivido na Inglaterra por alguns anos – ele queria mostrar como a civilização modificava profundamente as pessoas – mas não foi bem assim que a coisa acabou... Eles voltaram a ser “selvagens”.

Nos diários de Darwin, ele descreve um pouco da relação conflituosa que mantiveram ao longo dos cinco anos de viagem do Beagle. O capitão queria fazer essa expedição para provar a veracidade do dilúvio bíblico, e fósseis de peixes encontrados nas montanhas da América do Sul seriam uma das provas capazes de atestar isso. Darwin, no entanto, através da coleta de animais e plantas de diferentes regiões por onde passava, era levado a orientar suas pesquisas em uma outra direção. Ele provocava reações de surpresa em FitzRoy ao expor suas ideias sobre a natureza; nela, tudo se modificava, tudo se movia. Apesar de sua formação religiosa, ele começava a pôr em questão algumas de suas crenças, inclusive a da existência de um Deus capaz de intervir diretamente no universo natural. Em seu retorno à Inglaterra (na época, Darwin tinha 27 anos), ele se empenhou na organização e descrição, juntamente com Henslow, dos materiais coletados durante a viagem. Ele pôde escolher os melhores cientistas nas áreas específicas para analisar as amostras coletadas. Naquele momento, ele já desfrutava de uma reputação na comunidade científica, o que lhe possibilitou uma ampliação de sua rede de contatos e seu posterior ingresso na Geologycal Society. Charles Lyell, Richard Owen, Johne Gould e George R. Waterhouse foram algumas das pessoas que mais exerceram influência sobre Darwin nesse período. Já no ano seguinte ao de seu retorno à Inglaterra, ele elaborou um artigo sobre aspectos geológicos da América do Sul, e anunciou sua descoberta sobre fósseis de preguiças e tatus gigantes (fruto de um trabalho conjunto com o anatomista Richard Owen, que o ajudou nessa descrição). Além disso, foi convidado por FitzRoy para ajudar na organização de seu livro sobre a viagem do Beagle. Darwin aproximava-se cada vez mais da elaboração da Teoria Geral das Espécies ao tecer especulações sobre a evolução.

O casamento com Emma

Em 1839, Darwin se casou com sua prima Emma Wedgwood, com quem teve dez filhos, sendo que três deles vieram a falecer em função de doenças da época e de problemas na gestação. Em uma carta escrita a Emma pouco antes de se casarem, em 1839, Darwin demonstra sentir por ela uma grande ternura: “eu acho que você irá me humanizar, e em breve me ensinar que existe uma felicidade maior do que a de construir teorias e acumular fatos em silêncio e na solidão”. O casamento com Emma, que, diferentemente dele, possuía uma crença inabalável em Deus, amparou-o em muitos momentos de conquista, como foram os de expansão das suas ideias pela comunidade científica, assim como em momentos de fraqueza e debilidade corporal. Desde seu retorno da viagem do Beagle, Darwin passou a sofrer de mal-estares periódicos, que incluíam dores estomacais, vômitos, graves tremores, palpitações, e outros sintomas, que se intensificavam em momentos de estresse. Muitas das vezes, era seu pai quem o tratava, sempre impaciente com os sintomas do filho, por ele rotulados como “nevralgia”. Em uma carta escrita a um parceiro de trabalho, em 1864, Darwin descreve algumas das sensações experimentadas com a doença que periodicamente lhe acometia: “a saúde é tão incerta que eu nunca sei como eu estarei e durante alguns dias eu não consigo falar com ninguém”.

A Teoria da Seleção das Espécies

Durante a década de 1840, trabalhou no estudo sobre cracas juntamente com o botânico Joseph Hooker, através do qual foi produzido o artigo Ensaios, que lhe valeu o título de biólogo. Além disso, publicou os três volumes de sua obra sobre geologia e conheceu o naturalista Thomas Huxley, que iria apoiá-lo na comunidade acadêmica durante a polêmica em torno da Teoria das Espécies. Huxley depois ficou conhecido como “buldogue de Darwin” pelo fato de defender com fervor as ideias darwinianas. Entre 1838 e 1859, paralelamente ao desenvolvimento de pesquisas geológicas e sobre a fauna marinha, dedicou-se ao estudo dos fósseis e espécimes que trouxera da América do Sul à luz das ideias Lamarkianas e da teoria Malthusiana acerca do crescimento populacional e da competição entre seres vivos pela sobrevivência.

Em uma carta escrita a um colega naturalista, em 1844, Darwin relata algumas de suas impressões sobre a evolução das espécies: “eu estou quase convencido de que (contrariamente à opinião com a qual eu comecei) as espécies não são (é como confessar um assassinato) imutáveis. Deus me proteja das ideias absurdas de Lamark sobre a ‘tendência ao progresso’, ‘adaptações de uma lenta propensão dos animais’ etc, - mas as conclusões a que estou sendo levado a ter não são muito diferentes das dele – embora os significados da mudança sejam totalmente diferentes – eu acho que eu encontrei (a pretensão dele!) a maneira simples através da qual espécies se tornam perfeitamente adaptadas a vários fins”.

Na carta, podemos perceber o conflito que por toda a vida acompanhou Darwin: ao mesmo tempo em que ele afirmava a sua crença em Deus, era convocado a questionar a sua existência na organização do mundo natural em função das conclusões de suas pesquisas. Após o falecimento de sua filha Annie, em 1851, a sua crença em Deus foi ainda mais fortemente abalada. Browne, o autor de uma de suas (muitas) biografias, relata que Darwin passou a se proclamar um agnóstico por não encontrar provas de existência de Deus, mas não descartar completamente sua existência. “Quando escreveu A Origem das Espécies, Darwin abandonou completamente a ideia de um Criador que interferia ativamente no mundo natural. Ele tinha, sim, a sensação de que algo supernatural existia, mas seja lá o que fosse, esse deus não tinha influência sobre o mundo natural”.

Antes da publicação, em 1859, de A Origem das Espécies, livro no qual são apresentadas suas principais ideias sobre o processo de evolução dos seres vivos, Darwin recebera uma carta de um jovem naturalista chamado Alfred Russell Wallace, que havia viajado por todo o mundo recolhendo espécimes e chegado a conclusões semelhantes. Em 1858, ambos assinaram dois trabalhos que foram apresentados na Sociedade Linneana de Londres, com uma introdução de Charles Lyell, que afirmava o fato de eles terem chegado de forma independente à mesma teoria. Darwin adiara a publicação de sua teoria até esse momento pelo fato de ela contrariar a perspectiva criacionista, que ninguém até então ousara questionar. Além disso, suas percepções conflituosas de mundo, resultantes de uma mistura entre sua formação religiosa e sua busca por uma lógica de organização da vida no mundo natural, o levaram a um contínuo repensar de suas ideias, que, com o passar dos anos, iam ganhando mais força e consistência. A carta de Wallace, ao que tudo indica, parece ter sido determinante na publicação de A Origem das Espécies, já que ela anunciava o desenvolvimento, de forma independente, de uma teoria semelhante por um outro teórico. Darwin se viu impulsionado a publicar o resultado de suas pesquisas após 20 anos de estudo sob a ameaça de ter a autoria de seu trabalho questionada e não reconhecida.

As ideias defendidas por Darwin na obra que provocou grande alvoroço na comunidade científica da época rapidamente ganharam o mundo. Em função disso, Darwin também passou a se corresponder com um importante pensador do século XIX, Karl Marx, que entendia a teoria defendida pelo biólogo em A Origem das Espécies como capaz de dotar de uma base histórica-natural a perspectiva sustentada em O Capital, desenvolvida num trabalho conjunto com Engels. Darwin, diante do presente que recebera de Marx, um exemplar de O Capital, apresentou-se como um leigo em assuntos de economia política, afirmando, porém, estarem todos unidos em prol de um movimento de expansão do conhecimento: “apesar de os nossos estudos serem tão diferentes, penso que aspiramos ambos honestamente ao alargamento do conhecimento e que isso servirá sem dúvida nenhuma, no fim das contas, à felicidade da humanidade”.

O homem Charles Darwin

Embora a teoria da evolução das espécies tenha gerado muita polêmica no meio acadêmico, sobretudo pelo grande poder de influência da tese criacionista, Hooker e Huxley, parceiros intelectuais e amigos íntimos de Darwin, a tornaram amplamente conhecida. Darwin possuía uma saúde instável e permanecia durante muito tempo afastado em sua casa no interior do país, o que o impossibilitava de acompanhar de perto esse processo. Em sua biografia, ele descreve um pouco da sensação experimentada com a polêmica em torno de sua teoria. “Considerando a ferocidade com que fui atacado pelos ortodoxos, parece risível que eu tenha outrora pretendido ser pastor”. Os sucessivos mal-estares por ele vivenciados não o impediram, contudo, de ter uma convivência próxima e harmoniosa com seus filhos, em relação aos quais nutria um grande afeto. Em sua casa, localizada no sudeste da Inglaterra, atualmente aberta para visitação, pode-se ver dois vasos de plantas sobre um piano, três simples artefatos da vida cotidiana que narram um pouco das relações familiares que eram mantidas entre Darwin, Emma e seus filhos. Ele costumava pedir que sua mulher e filhos tocassem música para as minhocas para estudar os efeitos nelas provocado. De um outro objeto da casa, a mesa de bilhar, também emergem outras histórias da vida de Darwin e de sua forma simples e ao mesmo tempo ousada de encarar o mundo. Era ali que ele jogava com seu mordomo. Com sua esposa, ele jogava gamão, e os resultados dos jogos eram sempre por ele anotados. Em uma carta de Darwin de 1886, ele admite que “ela ganhou em 2.490 ocasiões, enquanto eu ganhei, hurra!, hurra!, 2.795 vezes”.

Suas produções tiveram continuidade durante toda a década de 1860 e 1870. Darwin se interessou por plantas e pelo mecanismo de controle das flores sobre a polinização feita por insetos, que culminou na publicação do livro Variações, em dois volumes. Em 1871, publicou os dois volumes da obra A descendência do homem e seleção em relação ao sexo também em dois volumes. Em 1872, publicou A expressão das emoções nos homens e nos animais, no qual abordou a evolução psicológica dos humanos. Até o final de sua vida, Darwin foi um homem inquieto. Não se cansou de trabalhar em pesquisas sobre o universo natural e de observar o mundo à sua volta, considerando ser a “atenção a mais importante de todas as faculdades para o desenvolvimento da inteligência humana”. Para ele, um homem que ousasse desperdiçar uma hora ainda não havia descoberto o valor da vida.

O que havia sido anunciado prematuramente no seu gosto pelos pequeninos seres do mundo natural e no seu hábito de colecioná-los assumiu novos contornos em sua vida de adulto e se fez visível nos rastros dos caminhos por ele trilhados. Darwin ousou encontrar passagens em lugares de densas matas, onde o olhar pouco alcançava e a palavra era interdita. Dispensou os mapas dos caminhos rastreáveis e foi até a terra buscá-los. Lá mesmo de onde o homem havia partido e, tão logo, se projetado em direção a um mundo de ideias asséptico demais para a sua consciência de perenidade e pequeneza. Darwin presenteou o homem com a consciência incômoda de sua origem, devolvendo-o, simbolicamente, a si mesmo. “O homem, com suas nobres qualidades, ainda carrega no corpo a marca indelével de sua origem modesta”. Mesmo com tal lucidez, e apesar de todos os anos acumulados em seus olhos, Darwin nunca deixou de se impressionar com a vida. Algumas coisas permaneceriam para sempre secretas e inapanháveis por suas mãos modestamente humanas: "A impossibilidade de concebermos o universo tão grande e maravilhoso, como realmente o é, me parece o argumento principal para a existência de Deus."

Voltar