Ciência dá Samba!

A cana que aqui se planta tudo dá, até energia... Álcool, o combustível do futuro

- G.R.E.S. Salgueiro | 2004

Sinopse

“(...) Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados (...)
Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo...”
Pero Vaz de Caminha - 1º de maio de 1500

E não é que o nosso primeiro cronista tinha razão?

Em sua carta-inventário, o nobre lusitano profetizava, logo de cara, a fertilidade da Terra Brasilis, ainda sob o impacto inicial de avistar uma terra tão rica em variedade de plantas e animais. Teriam os colonizadores encontrado a Canaã – A terra prometida – ou viria ser o novo país a Canaã – a terra da cana?

Mais uma vez o Salgueiro desembarca na Sapucaí com as suas cores e traz seus foliões para brincar nesta grandiosa usina de alegria, destilando alto astral na festa de Momo. E aporta na avenida com uma das principais riquezas da nossa terra, em que se plantando tudo dá.

Originária da Índia, a cana-de-açúcar encontrou no solo verde-amarelo e na mão-de-obra indígena um terreno fértil para a produção de riqueza; atraiu exploradores e instituiu os fundamentos da vida colonial portuguesa no Brasil. A nobreza se regozijava na doçura do produto enquanto os negros provavam, nas lavouras, o gosto amargo da escravidão.

O olho gordo sobre o açúcar trouxe os holandeses, que por sua vez, trataram de garantir o seu quinhão em Pernambuco. Obrigados a plantar em outra freguesia, os refinados nobres da Casa de Orange utilizaram a experiência tupiniquim nas Antilhas. Apesar disto e do protecionismo ao açúcar da beterraba européia, não havia como escapar: o Brasil já era o país do futuro. E da cana.

Tempos mais tarde, mais precisamente no século XX, surgem as primeira usinas de álcool no Brasil. Não é que a observação de Caminha estava sendo levada às últimas conseqüências? Quem poderia imaginar que na terra que tudo dava, daria até energia?

Em meio a um mundo em transição por causa da Segunda Guerra Mundial, recursos externos chegaram ao Brasil mudando o perfil econômico da nação. Fábricas e indústrias foram construídas em nosso solo. Trabalho para o povo e força para a economia. Na busca por fontes alternativas de energia, o país em mutação vislumbrava no álcool, um mero plebeu dos trópicos, o combustível verde (e amarelo) capaz de ameaçar a coroa de rei dos combustíveis ostentada pelo petróleo.

Nos anos 70, vejam só, o renegado produto entraria em cena para salvar a pátria após uma crise sem precedentes. Como “quem não tem cão caça com álcool”, o Brasil, que tinha toda infra-estrutura em terra, clima e tecnologias, deu a partida ao mais ambicioso programa de energia renovável, um jeitinho brasileiro de abastecer. Destilarias foram criadas anexas às decadentes usinas de açúcar. A indústria automobilística apostou na energia que nascia do chão brasileiro. Mas o que era doce se acabou. O fantasma do desabastecimento e a queda do preço do petróleo entornaram o caldo do programa. A semente, entretanto, continuaria viva e cada vez mais viável para enfrentar a estrada desse futuro tão presente.

O terceiro milênio traz consigo a esperança e a necessidade de apostar em novas fontes de energia. No vai-e-vem da economia, a guerra pelo petróleo acelera a aposta do homem em combustíveis de fontes renováveis. Foguetes alcançam o espaço impulsionados pela força do combustível verde e limpo. O futuro aplaude e o meio-ambiente agradece.

Do espanto de Caminha até a conquista espacial, passaram-se séculos de busca pela energia capaz de mover o progresso. O Brasil evolui e encontra num futuro próximo a arte de se superar, moeda forte numa civilização que luta pela preservação de suas raízes. É o país que exporta, entre tantos produtos, beleza, arte e encanta o mundo com o jeitinho brasileiro de ser. Se assim quisermos, assim será: um Brasil que renova sua energia vital celebrando nos asfaltos do mundo e até no infinito a sua grande herança divina.

Um país que não é melhor, nem pior. É apenas diferente e abençoado; terra onde tudo o que se planta deu, dá e dará. Até energia!

Carnavalescos: Renato Lage, Márcia Lávia e Departamento Cultural

Samba-Enredo

Autor(es): Leonel, Luizinho Professor, Serginho 20, Sidney Sã, Professor Newtão e Quinho
Intérprete: Quinho

Salgueiro produz alegria
"caminha" descrevendo nossa terra
veio da Índia inspiração para o cultivo
que dava fim a liberdade do nativo
terra de fartura coberta de cana
Canaã, por natureza
negro, do açúcar mascavo
branco toque refinado
da cobiça holandesa

Academia, é doce seu cantar
verde eldorado, o encanto "deste lado"
solo fértil pro meu samba germinar

Pelo tempo, adoçou a economia
com a evolução, ganhou outro "sabor"
o álcool, o progresso movia
coisa que caminha nem imaginou
e mesmo sem destronar o ouro negro
já desvendaram seus segredos
o nosso jeito de abastecer
sonho vê-lo enfim em seu reinado
meio ambiente preservado
conquistando o "espaço" infinito alvorecer

A cana que aqui se planta, tudo dá
dá samba até o dia clarear
o combustível do futuro é brasileiro
é energia que hoje embala meu Salgueiro

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Fonte: Liesa